Com apenas 22 anos, Su Yimingjá carrega há quatro anos o título de “campeão olímpico”. Sua trajetória como snowboarder profissional e sua ascensão até o lugar mais alto do pódio mundial já foram minuciosamente dissecadas por incontáveis veículos de mídia. Cada ápice, queda, virada de jogo e transição da sua carreira esportiva foi revisto e analisado como um replay em câmera lenta dos melhores momentos de uma competição.
Depois da vitória em Milão, em fevereiro deste ano, quando voltou a estampar manchetes pelo mundo, repetir a mesma narrativa da lenda das montanhas soava apenas como redundância. Percebemos que revisitar a já conhecida “história de crescimento de um campeão” não respondia a uma pergunta bem mais instigante: longe da neve, em quem Su Yiming está realmente se tornando? Poucos se dão conta de que, para além do status de atleta de elite, Su Yiming sempre foi um criador. Nesta matéria, voltamos o foco para um capítulo recém-revelado da sua vida — sua estreia como fundador de uma marca de streetwear. Pelo olhar característico da Hypebeast, nos sentamos com ele para reapresentar ao mundo o homem por trás das medalhas.
Ter crescido como ator mirim em filmes e séries deu a ele uma naturalidade diante das câmeras e uma sensibilidade de moda precoce. Ao longo da carreira esportiva, ele colaborou de forma consistente com grandes marcas globais. Para além dos contratos tradicionais de patrocínio, participou ativamente da criação de roupas de snowboard para a adidas e vem cocriando, continuamente, pranchas em colaboração com a Burton, uma das pioneiras do snowboard.
Agora, em vez de ser apenas sinônimo de campeão ou parceiro de marca, Su Yiming quer materializar um símbolo pessoal enraizado na cultura de rua. Estrelando a nova capa digital da Hypebeast China sob o tema “Made by Ming”, ele desenha sua evolução de construtor a criador e, por fim, a “ícone”, abrindo as cortinas para sua aguardada marca pessoal: Süugar.
Créditos do look: Jaqueta de trabalho camuflada BAPE® Mixed Camouflage / Moletom com capuz duplo BAPE® ABC Camouflage Shark / Camiseta de manga curta BAPE® APE HEAD / Calça de trabalho oversized BAPE® / Cinto BAPE® / Gorro de tricô BAPE® / Tênis BAPE STA™ / Relógio Cartier SANTOS DE CARTIER / Anel Cartier CLASH DE CARTIER / Colar Cartier CLASH DE CARTIER
Em conversa com Su Yiming
Hypebeast: Olhando para a sua trajetória, de ator mirim a atleta profissional, em que momento você começou a se interessar ativamente por streetwear e moda?
Su Yiming:Provavelmente por volta dos 15 ou 16 anos. Foi quando comecei a ter uma consciência real de estilo pessoal e de moda. Passei a formar opiniões próprias e a encontrar direções de que eu realmente gostava. Nesse processo, me expus o tempo todo a coisas novas e fui testando até descobrir o que combinava comigo. A transição da atuação para o esporte profissional me colocou em muitos ambientes diferentes, e isso virou um arsenal enorme de referências. Quanto mais eu caminho nessa estrada, mais percebo que encontrar um estilo único, impossível de reproduzir, é o que funciona melhor para mim.
Quais são os designers ou marcas que mais te influenciaram? Que tipo de inspiração eles trouxeram para você?
Pharrell Williams teve um impacto profundo em mim. Sempre acompanhei o trabalho dele, e aquele street style do começo da carreira, muito influenciado pelo skate, me marcou demais. Cresci mergulhado nas culturas do snowboard, do skate e do surfe, então a filosofia de design dele conversa muito comigo. Se um dia eu tiver a honra de colaborar com ele, quero muito aproximar isso do meu esporte e criar algo realmente empolgante juntos.
Suas colaborações com adidas e Burton te permitiram participar a fundo do processo de criação, desde o zero. Essas experiências despertaram em você o prazer de construir coisas fisicamente? Qual foi o maior aprendizado?
Foi um processo incrivelmente prazeroso e até mágico, porque cada produto que a gente desenhava era algo que eu mesmo iria vestir e usar. Competir no palco mundial usando peças que eu ajudei a criar me dá uma energia extra. Antes disso, eu não tinha tempo nem estrutura para acompanhar todo o ciclo de design do início ao fim, então foi um grande aprendizado observar designers profissionais e toda a equipe ao redor. Começamos com uma folha em branco e, com esforço conjunto, chegamos a um produto final. Estar na pista vestindo roupas que cocriamos, permitindo que as pessoas enxerguem minha personalidade e meu estilo — essa sensação é incomparável.
“Não gosto de fazer coisas pelas quais não tenho interesse de verdade, nem coisas movidas só pela utilidade. Quero que tudo o que eu faço venha direto do coração.”
Além do snowboard, você também gosta de sinuca e golfe. As habilidades e experiências que você acumulou ao longo dos anos nas pistas se traduzem para outros esportes — ou até para a construção da sua marca pessoal?
Para mim, independentemente do que você esteja fazendo, a lógica de fundo é exatamente a mesma. Primeiro, você precisa encontrar aquilo que ama — isso é o mais importante. Não gosto de fazer coisas pelas quais não tenho interesse genuíno, nem coisas movidas só pela utilidade. Quero que tudo o que eu faço venha direto do coração. Em segundo lugar, o snowboard me ensinou paciência. Você precisa acumular experiência com o tempo e seguir em frente com os pés no chão. Às vezes o sucesso não vem de imediato, mas, mesmo assim, é preciso se manter humilde, esperançoso e positivo.
Você falou sobre a importância do tempo. Uma descida em uma rampa de Big Air acaba num piscar de olhos — a entrada, o giro, o pouso acontecem em segundos —, mas exigem uma preparação imensa. Como você enxerga essa relação com o tempo?
É exatamente assim. No Big Air, uma única corrida, da saída até o pouso, leva cerca de 10 segundos, e só uns três segundos são no ar. Por exemplo, quando treinamos giros, sair de um 1.800 (cinco voltas) para um 1.980 (cinco voltas e meia) representa “apenas” 180 graus a mais. Mas essa meia volta extra costuma exigir um verão inteiro ou mais de meio ano de preparação física e treino em simulação. Eu só me atrevo a tentar na neve de verdade quando atinjo consistência total. Esportes extremos têm riscos muito altos, então a segurança é fundamental.
Falando em tempo, a Olimpíada de Inverno em Milão mexeu muito comigo. Depois da minha última descida na final do Big Air, eu acertei a manobra, mas sabia que não tinha sido minha melhor execução — o pouso teve falhas visíveis. Naquele momento eu já sabia que o ouro tinha escapado. Mas, enquanto esperava a nota, o pensamento mais forte na minha cabeça era: “Uau, esses quatro anos passaram muito rápido”. Todo o esforço dos últimos quatro anos se resumia àquele salto, àquela prova. Mesmo saindo com o bronze, eu estava imensamente feliz. Para mim, foi um encerramento perfeito. Essa sensação estranha de ver quatro anos terminarem num instante é algo que nunca vou esquecer.
“A marca se chama ‘Süugar’. Por um lado, faz um jogo com o meu nome. Por outro, eu quero que todo mundo viva com positividade, alegria e muita ‘doçura’.”
Esta entrevista marca a estreia oficial, em público, da sua marca pessoal. Você pode apresentá-la para o nosso público global — nome, logo e posicionamento?
É a primeira vez que eu anuncio essa ideia em público. A marca se chama Süugar. Como meu sobrenome é Su (Sü), fiz questão de colocar o “S” em maiúscula e acrescentar alguns “u” a mais. O nome dialoga com a minha identidade, mas, mais importante do que isso, eu quero que todo mundo viva todos os dias com positividade, alegria e muita “doçura”. O logo vai manter o elemento da “borboleta”. Desde o primeiro projeto de design em que coloquei a mão, a borboleta é o símbolo que melhor me representa.
Em termos de posicionamento e produto, estou começando pela minha zona de conforto: o snowboard. Quero dar às pessoas a chance de experimentar as botas, pranchas, fixações e roupas técnicas profissionais que eu realmente uso em treinos e competições. Mais adiante, vou apresentar, aos poucos, a minha visão mais ampla de streetwear e de peças para o dia a dia.
Camiseta Carhartt WIP S/S AMERICAN SCRIPT / Bermuda Carhartt WIP OG DOUBLE KNEE / Gorro Carhartt WIP SHORT WATCH HAT / Casaco Carhartt WIP MICHIGAN / Relógios da linha Cartier SANTOS DE CARTIER / Anéis da linha Cartier LOVE / Pulseiras da linha Cartier LOVE / Tênis adidas Hyperboost Edge
Por que você se sente tão conectado ao motivo da borboleta?
A borboleta não só imita o contorno da minha silhueta quando estou no ar; ela representa meu desejo profundo de liberdade. Usar o padrão de borboleta em treinos e competições funciona como uma fonte extra de energia e inspiração. Faz meus movimentos parecerem mais expressivos e amplos, revelando um lado meu que se destaca de todo o resto.
Não é raro ver atletas de elite migrarem para outros mercados, mas fundar, de fato, uma marca independente ainda é algo incomum. Houve algum gatilho específico para essa decisão ou foi uma evolução natural?
Foi um processo gradual. Trabalhar de forma tão próxima com marcas como Burton e adidas me levou fundo para o lado técnico do design, e eu percebi que tinha uma paixão verdadeira por esse universo. Pensei comigo: se eu amo tanto isso, por que não criar minha própria marca, onde eu possa dedicar mais tempo, energia e expressar completamente a minha visão? A partir daí, tudo foi evoluindo de forma muito natural.
Como um jovem criador que já trabalhou lado a lado com gigantes globais, fundar a sua própria marca significa assumir um controle criativo absoluto?
Sim, isso me dá uma tela muito maior para injetar minhas próprias ideias. Desde pequeno, sempre me disse para “nunca colocar limites”. O snowboard me traz uma sensação pura de liberdade, então espero que a marca não fique presa a uma única categoria de produto. Em vez disso, quero que ela abrigue muita coisa diferente, por meio de propostas de design diversas.
Você se preocupa que tudo seja visto apenas como “merchandise do Su Yiming”?
Minha inspiração inicial foi oferecer às pessoas um outro meio de entender quem eu sou. Cada produto que lançamos carrega meus pensamentos e atitudes pessoais. As pranchas, os equipamentos e o streetwear que você vê são peças que eu uso no dia a dia — coisas que, na minha cabeça, são perfeitas para o momento atual do esporte e do lifestyle. Não é só “merch” tradicional. Quero que as pessoas sintam, em algo físico e palpável, a alegria que eu vivo nas montanhas. E, no caso das roupas, você pode enxergá-las totalmente como uma extensão do meu próprio guarda-roupa, espelhando meu estilo de vida quando as câmeras se desligam.
Como atleta profissional, suas metas são matematicamente absolutas. Já nos negócios e na moda, o horizonte é infinito. O que seria “ganhar um campeonato” para a Süugar?
Esporte e moda são universos muito diferentes. No esporte, o objetivo é linear: acertar a manobra, ganhar a medalha e a meta está cumprida. No comércio e no streetwear, eu sou um completo iniciante, tenho muito o que explorar e aprender. Fazendo uma analogia com o snowboard, minha grande meta se repete a cada quatro anos com as Olimpíadas, mas, assim que um ciclo termina, outro começa com o Mundial ou com os próximos Jogos. Na moda é igual. Quero construir bem a minha marca, de forma contínua, inspirar mais pessoas e fazer com que elas sintam a alegria que existe por trás do que fazemos. Essa é a minha definição de vitória.
Jaqueta de trabalho em camurça Louis Vuitton / Camisa listrada de manga curta Louis Vuitton MONOGRAM / Bermuda de trabalho em denim Louis Vuitton / Dockside Louis Vuitton JAZZ / Cinto reversível Louis Vuitton INITIALES DAMOFLAGE 40 mm / Bolsa Louis Vuitton KEEPALL 35 / Bolsa de viagem Louis Vuitton KEEPALL 50 / Relógio Cartier SANTOS DE CARTIER / Colar Cartier JUSTE UN CLOU
Você cresceu numa era em que a nova geração na China está redefinindo completamente o que é “cool”. Já não se trata de traduzir referências ocidentais; vocês estão criando a própria linguagem. Que papel você quer que a sua marca desempenhe nessa onda?
Acho que a juventude desta era só quer expressar identidades únicas, individuais — “nunca colocar limites”. Não existe uma resposta certa; é preciso explorar com as próprias emoções e percepções. Enquanto você amar o que está fazendo agora e curtir o processo de evolução, isso já é lindo. Espero que a minha marca comunique esse desejo de liberdade e esse foco absoluto na paixão.
Tocar uma marca te coloca em uma arena totalmente nova, em que você assume o risco de que “se a marca fracassar, Su Yiming fracassa”. Você está pronto para carregar esse peso de expectativa coletiva?
Vou, sim, colocar tudo de mim para que dê certo. Mas, ao mesmo tempo, eu equilibro várias identidades: quero ir mais longe como atleta profissional e conquistar mais títulos, e também sou universitário. Gestão de tempo é um desafio enorme. Como essa marca nasce de uma paixão genuína, vou investir o máximo de esforço. Mas, por ser um novato sem experiência tradicional em negócios, vou manter a humildade, aprender com quem veio antes e evoluir passo a passo.
Aos olhos do público, o nome “Su Yiming” já ultrapassou o indivíduo atleta e virou um símbolo cultural para a geração jovem. Como você internaliza ser um “ícone”? Isso traz mais pressão ou mais senso de responsabilidade?
Esse sentimento ficou muito mais intenso depois que completei 18 anos. Minha primeira experiência olímpica foi como um garoto correndo atrás de um sonho, sem pressão de verdade, porque tudo era novo e eu só queria curtir. Mas, quando subi no palco olímpico pela segunda vez, senti o peso da responsabilidade. Percebi que já não estava ali apenas por um hobby pessoal; eu represento uma parte do snowboard chinês e preciso mostrar, para o mundo, o espírito e a força da juventude chinesa.
O snowboard tem uma história relativamente curta na China, e eu quero provar ao mundo que, com o esforço de todos, conseguimos não só alcançar como brilhar nesta era. Transformo essa responsabilidade em combustível. Gosto de converter pressão em impulso e aproveitar a jornada. Para mim, ser um “ícone” significa, simplesmente, fazer bem o que você tem que fazer. As experiências que você vive enquanto corre atrás dos seus sonhos são as únicas riquezas verdadeiras e irrepetíveis da vida.
Se, no futuro, a sua carreira esportiva chegar ao fim, você pretende se dedicar totalmente a essa marca ou já pensa em criar algo completamente novo?
Essa marca vai caminhar comigo para sempre, e estou totalmente disposto a dedicar meu tempo e minha energia ao crescimento dela. Ao mesmo tempo, acredito que a vida não deve ter fronteiras. Sou o tipo de pessoa que adora pegar ideias soltas, aparentemente malucas, e transformá-las em realidade. Quais pensamentos um eu de 25 anos ou um eu já aposentado vai ter, eu ainda não sei — mas espero por isso com uma expectativa enorme.
“Não importa a área, não importa o caminho, quero chegar como um trovão.”
“Ming” (鸣) é o seu nome, mas também significa emitir um som, fazer uma declaração — algo que você vem fazendo de forma consistente. Se tivesse que definir hoje, que tipo de “voz” você quer projetar por meio dessa marca?
Exatamente como o meu nome sugere, não importa a área, não importa o caminho, quero causar impacto como um trovão (Yiming Jingren / 一鸣惊人). Essa é a convicção que carrego comigo e o objetivo final pelo qual estou lutando.
Fotógrafo: Zhongjia Sun
Diretor: Daniel Teo
Videomaker: Gavin Li
Stylist: Feihong
Cabelo & maquiagem: Siyuan
Produtor: Parris
Editor-chefe: Phil Gong
Editor-gerente associado: Buzz Lee
Associate Director de Creative Media: H
Global Creative Director: Kevin E. Wong
Media Partnerships Manager: Zachary Lai
Design gráfico: Shin Tian, Forrest Grenfell
Gaffer: Xuanchao
Assistente de styling: Paprika
Retoque/Pós-produção: Avery
Coordenação de produção: Yee
Agradecimentos especiais a A BATHING APE®/BYREDO/CARHARTT WIP/LOUIS VUITTON/USM



