O U.S. Open sempre vendeu uma ideia muito específica sobre golfe. Mais do que qualquer outro major, ele se apresenta como o mais democrático. Todos os anos, milhares de jogadores entram nas classificatórias, onde pessoas comuns, com empregos em horário comercial, colocam a bola em jogo ao lado de ex-campeões de major. Em teoria, qualquer um pode conquistar seu lugar.
Pela sexta vez, o campeonato voltou a Shinnecock Hills. É uma combinação curiosa: o torneio mais aberto do golfe acontecendo em um dos clubes mais exclusivos do país.
Essa tensão não é exclusiva de Shinnecock, nem é necessariamente uma crítica. Em muitos aspectos, é parte do que torna o clube tão fascinante. Poucos lugares carregam tanta importância arquitetônica ou peso cultural dentro do golfe americano. Mas, sempre que o U.S. Open chega aos Hamptons, a conversa inevitavelmente extrapola os limites da propriedade. Shinnecock não é apenas um campo de golfe isolado, é parte de uma região que virou sinônimo de um certo tipo de riqueza, de gosto e de aspiração à americana.
“O irônico é que alguns dos campos mais baratos de lá são justamente os mais difíceis de acessar.” — Nick Annacone
Fale em Hamptons e quase todo mundo imagina a mesma cena: velhas fortunas, mansões intermináveis e clubes privados escondidos atrás de sebes. E não há dúvida de que existe verdade nessa imagem. Shinnecock, National Golf Links of America e Maidstone seguem entre as instituições mais reverenciadas do país, onde a história remonta a mais de um século e as listas de sócios são moldadas tanto pela linhagem familiar quanto pelo poder de consumo. O problema é que o estereótipo ficou tão dominante que acaba ofuscando tudo o mais que acontece em volta.
“Quando você pensa nos campos de lá, as pessoas pensam em Shinnecock, National, Maidstone”, diz Nick Annacone, nascido em Southampton e sócio do Southampton Golf Club. “Mas tem muito mais coisa além disso.”
Passe tempo suficiente nos Hamptons e uma visão mais nuançada começa a surgir. A região sempre atraiu riqueza, mas a composição dessa riqueza mudou. Empreendedores, criativos, atletas e fundadores se juntaram às famílias que há gerações passam os verões no leste. As vilas, sobretudo no verão, cada vez mais lembram extensões do centro de Manhattan, tomadas por muitas das mesmas marcas, restaurantes e referências culturais que definem a vida na cidade. O golfe também evoluiu junto com esse movimento.
A qualidade do golfe é, obviamente, parte do charme. Mas o que torna os Hamptons especialmente interessantes é a quantidade de versões de golfe que coexistem no mesmo território. Em um trecho relativamente pequeno do leste de Long Island, você encontra alguns dos clubes mais exclusivos do mundo, algumas das manifestações mais recentes de golfe de luxo e algumas das comunidades de golfe público e local mais queridas de Nova York. Annacone transita pelos três universos.
“Com certeza existem pessoas com muito dinheiro que podem pagar uma taxa de adesão exorbitante em Sebonack ou The Bridge”, ele diz. “Depois tem quem tenha casa lá, ou vida lá há 100 anos, que é sócio de National, Shinnecock, Maidstone. E aí você tem Southampton, que foi criado por moradores locais, para moradores locais.”
É uma forma de enxergar a região bem mais útil do que a velha dicotomia entre dinheiro antigo e dinheiro novo, que costuma dominar as conversas sobre os Hamptons. Os dois existem, claro. Mas nenhum deles, sozinho, dá conta do que está acontecendo.
Pegue The Bridge, por exemplo. Construído no antigo terreno do Bridgehampton Race Circuit, o clube se tornou um dos exemplos mais claros de uma nova sensibilidade dos Hamptons, em que arte, arquitetura e hospitalidade têm papel central na experiência. O clubhouse parece mais uma extensão da cultura de design contemporâneo do que uma declaração de amor às tradições do golfe. Sebonack ocupa um espaço semelhante, atraindo sócios que talvez não tenham laços familiares de décadas com a região, mas estão igualmente empenhados em fazer dos Hamptons parte de suas vidas. As barreiras de entrada também são de outra natureza.
“O obstáculo nesses lugares é mais financeiro”, diz Annacone. “O irônico é que alguns dos campos mais baratos de lá são justamente os mais difíceis de entrar.”
Em muitos aspectos, essa distinção chega ao cerne do golfe nos Hamptons. Em alguns clubes, herança e relações continuam sendo a moeda principal. Em outros, o obstáculo financeiro é mais explícito. Mas, como Annacone destaca, dinheiro sozinho raramente garante acesso. E, ainda assim, focar apenas nos clubes privados é ignorar completamente outro lado dessa história.
Para quem observa esses clubes de fora, muitos deles mudaram muito de clima nos últimos 20 anos. — Adam Scott
Um dos temas mais surpreendentes que surgiram nas conversas com os locais foi a frequência com que eles citavam lugares que raramente aparecem no debate nacional. Montauk Downs, um campo público na ponta leste da ilha. Sag Harbor Golf Course, um traçado municipal de nove buracos. Southampton Golf Club, um projeto de Seth Raynor que faz divisa com Shinnecock e continua sendo uma das joias arquitetônicas mais subestimadas da região, quase um século após sua fundação.
“Você meio que tem de tudo”, diz Annacone. “Montauk Downs é um dos melhores e mais subestimados campos de golfe de Long Island. Aí você tem Sag Harbor, que é um campinho municipal de nove buracos. Você acaba vendo todos os lados.” Essa variedade, mais do que uma ideia única, talvez seja a característica que define o golfe nos Hamptons em 2026.
Visto de fora, é fácil enxergar apenas exclusividade. A proliferação de criadores de conteúdo de golfe e de perfis de clubes tornou lugares como Shinnecock e National mais visíveis do que nunca, ainda que a experiência em si continue, em grande parte, inacessível. Mas visibilidade e compreensão não são a mesma coisa. “Eu não acho que você consiga fazer justiça a esses campos pelo que vê nas redes sociais”, diz Annacone. “Você pega uma noção, mas não vive a experiência completa até estar, de fato, lá.”
Curiosamente, porém, ele não vê essa exclusividade como totalmente negativa. “Eu meio que acho legal ter um pouco de segredo”, ele diz. “Eles são tão imersos em tradição que isso, na minha visão, aumenta o apelo e o fascínio dos campos.”
Adam Scott, olhando de fora, chegou a uma conclusão parecida. O ex-campeão do Masters compara os Hamptons a outras regiões de golfe de peso global, citando a Sandbelt de Melbourne como referência. O que o surpreendeu, porém, não foi a qualidade dos campos, e sim o quanto a atmosfera destoava do estereótipo. “Muitos clubes são mais tradicionais”, diz Scott. “Mas, para quem enxerga esses clubes de fora, muitos mudaram de clima nos últimos 20 anos. São muito mais voltados para a família e bem menos sisudos do que a maioria imagina.”
Essa observação parece especialmente pertinente agora que o U.S. Open retorna a Shinnecock. O campeonato traz uma onda já conhecida de espectadores, patrocinadores, mídia e trânsito para uma região que já opera perto do limite. As estradas ficam mais cheias, os restaurantes mais disputados e os moradores, mais uma vez, se veem dividindo seu pedaço de Long Island com o resto do mundo do golfe.
Essa transformação vai além do golfe em si, porque o torneio deixou de ser a única atração. Já na quarta-feira, boa parte da conversa tinha migrado para as casas de hospitalidade, as ativações de marca e a agenda social mais ampla em torno do campeonato. Dewar’s, o Scotch whisky oficial do U.S. Open, vem há cinco anos explorando exatamente esse cruzamento. Seu coquetel Lemon Wedge virou figurinha carimbada na semana do torneio, evoluindo para algo semelhante ao Honey Deuce no U.S. Open de tênis: um ritual feito sob medida para o campeonato, que existe tanto nas redes sociais quanto dentro dos portões do evento.
Mas o torneio também cria uma oportunidade rara de olhar além do leaderboard. Por uma semana, a atenção do mundo se volta para um canto de Long Island que se tornou uma das regiões mais relevantes culturalmente para o golfe. Instituições tradicionais que mudaram muito pouco, novos clubes que abraçam uma outra expressão de luxo e campos públicos e clubes locais que seguem atendendo às comunidades do entorno. O U.S. Open pode até ser o motivo da viagem. Mas a parte realmente interessante da história é tudo o que as pessoas descobrem assim que chegam lá.



