O Melhor de Sundance 2026: O Guia Definitivo do Director Fits

O que teve de mais incrível no último Sundance em Park City pelos olhos do @directorfits: fitas perdidas dos Beastie Boys, estreias de slow cinema e a comédia sexual escrachada de Olivia Wilde.

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Passei quatro dias na última edição do Sundance Film Festival em Park City, Utah, a convite do pessoal incrível da Hypebeast. No começo desta semana, publicamos um diário que registra minuciosamente minha experiência no festival como estreante. Também é o primeiro ano sem o fundador do festival, Robert Redford, que batizou o evento em homenagem ao seu personagem-título em Butch Cassidy and the Sundance Kid. A presença dele sempre pairou de forma marcante sobre a cidade — e este ano não foi diferente. Muitos motoristas de Uber e voluntários que encontrei pelo caminho tinham histórias sobre ele. Toda sessão de filme em Sundance começava com uma homenagem emocionada ao fundador do festival.

Quando eu criei Director Fits há apenas alguns anos, nunca imaginei que isso me levaria a lugares como este. Nunca achei que estaria nesses ambientes. Assistir ao episódio de Entourage da segunda temporada, episódio 7, intitulado “The Sundance Kids”, era o mais perto que eu achava que chegaria daqui. Eu nunca tinha ido a nenhum festival de cinema e, de longe, eles pareciam aqueles eventos glamourosos para pouquíssimos escolhidos.

Embora isso talvez seja um pouco verdade, o Sundance 2026 pareceu bem mais democrático tanto no público quanto na seleção de filmes. O diretor do festival, Eugene Hernandez, me disse que Sundance é um lugar que “está sempre olhando para frente”. Meus filmes preferidos no festival foram algumas cápsulas do tempo que preservam eras distintas da cultura, o retorno à boa forma de um lendário autor dos anos 90 e uma comédia estrelada de um cineasta já consagrado. Então, acho que a minha experiência em Park City acabou olhando mais para trás do que para frente? Mas acredito que um filme de um diretor estreante em longas, Rafael Manuel, contradiz essa minha afirmação. Ao longo dos meus quatro dias em Park City, vi nove filmes. Aqui vão alguns que ficaram na cabeça.

The Best Summer
Dirigido por Tamra Davis

The Best Summer é uma joia absoluta, literalmente. No auge dos incêndios em LA, pouco mais de um ano atrás, a diretora Tamra Davis encontrou uma caixa de fitas perdidas na garagem de sua casa em Pacific Palisades enquanto evacuava a área. Em 1995, pouco depois de se casar com Mike D, dos Beastie Boys, a banda foi escalada como headliner, ao lado de um elenco estrelado de grupos, para uma turnê na Austrália. Davis embarcou na turnê, levou sua câmera e registrou praticamente tudo — do superempolgante ao superbanal. Ela chamou Kathleen Hanna, do Bikini Kill, para conduzir entrevistas no backstage usando o mesmo roteiro de perguntas para todos os integrantes das bandas do lineup.

Adam Yauch aparece usando a clássica camiseta de logo da Supreme em 1995, apenas um ano depois de James Jebbia lançar a marca. Surreal. Beck é flagrado dizendo que sua resolução de Ano-Novo é finalmente comprar um shorts pela primeira vez desde que tinha 10 anos. Ok? Dave Grohl aponta para cigarros e vinho quando perguntam como ele consegue se apresentar no palco. Lembrando que isso é apenas um ano após a morte de Kurt Cobain; a ferida ainda parecia bem aberta.

Todo esse doc passa a sensação de assistir às fitas caseiras de uma família — só que os parentes são os Beastie Boys, Sonic Youth, Bikini Kill, Foo Fighters, Pavement, etc. Davis escolhe manter todos esses planos longos e tremidos em vez de montar tudo em algo limpinho e polido. Isso cria a sensação de estar ali, na sala com eles e na estrada, o que reforça ainda mais o clima de cápsula do tempo raríssima. De modo geral, há muitos momentos íntimos e raros de bastidores neste documentário.

Em uma época em que estamos tão acostumados a ver esse tipo de conteúdo dos nossos artistas favoritos o tempo todo, graças ao Instagram e ao TikTok, este doc se destaca por nos permitir, como espectadores, entrar em uma máquina do tempo e espiar por trás da cortina de alguns dos nossos heróis musicais dos anos 90. Você vê Ad-Rock flertando com Kathleen Hanna no backstage (os dois se casariam menos de uma década depois) e descobre o tipo de comida preferida e a cor favorita de Kim Gordon. É quase como entrevistas no estilo “homem na rua” misturadas com aquele conteúdo de recomendação que vemos o tempo todo nos nossos feeds… só que em 1995. Não me surpreenderia se, em algum momento, o Instagram oficial do Coachella começasse a fazer conteúdo exatamente assim…

Filipiñana
Dirigido por Rafael Manuel

Rafael Manuel e seu longa-metragem de estreia, Filipiñana foram descobertas totalmente novas para mim. Ao chegar ao festival, eu queria ver coisas que simplesmente não estavam no meu radar. Quando recebi um convite inesperado para este filme, aceitei na hora para matar essa curiosidade.

O filme soa como uma grande metáfora visual sobre classe e gênero nas Filipinas. A trama se passa em um luxuoso campo de golfe, que, segundo Manuel, é um tipo de empreendimento relativamente novo em seu país. É um filme narrativo que acompanha uma garota chamada Isabel, que se encanta pelo presidente do country club onde trabalha, o Dr. Palanca. Ao começar a segui-lo pelo clube, ela descobre algo sinistro escondido sob a superfície. De acordo com o diretor, por causa das regras de distanciamento impostas durante a pandemia, a popularidade do golfe cresceu exponencialmente e, em alguns casos, às custas de vidas humanas. No filme, o campo de golfe funciona como um microcosmo das dinâmicas de classe e gênero em jogo nas Filipinas.

Na parte de perguntas e respostas após a sessão, Manuel comentou que o país é extremamente fértil em termos de agricultura, mas os campos de golfe são desfrutados apenas por um punhado de pessoas ricas — o cenário perfeito para explorar relações de classe e de poder. Havia uma dicotomia rígida entre os funcionários do resort, especialmente entre os caddies e a equipe de limpeza.

Filipiñana é um filme muito imponente. Adorei os planos estáticos, sem muitos movimentos de câmera. As escolhas pareceram extremamente intencionais do começo ao fim. É difícil acreditar que este longa seja a primeira experiência do diretor, da protagonista, do diretor de arte e da figurinista. O trabalho de todos soa maduro e seguro. É uma ótima adição ao universo do slow cinema — e exatamente o tipo de achado que eu esperava descobrir no festival.

Once Upon a Time in Harlem
Dirigido por William Greaves e David Greaves

Once Upon a Time in Harlem é uma cápsula do tempo absolutamente deslumbrante sobre o Harlem Renaissance. Em 1972, William Greaves reuniu alguns dos pilares da renascença cultural do Harlem dos anos 20 e 30 para uma espécie de reencontro no apartamento de Duke Ellington. O filho de William, David, finalizou o filme cerca de uma década após a morte do pai e aproximadamente 60 anos depois de esse encontro histórico ter acontecido.

O filme foi rodado de um jeito que faz você se sentir um observador privilegiado das conversas daquela que talvez seja a melhor mesa de jantar de todos os tempos. Figuras ilustres como Ernest Crichlow, Eubie Blake e Arna Bontemps relembram os velhos tempos e o impacto deixado por contemporâneos como W. E. B. Du Bois e Langston Hughes. É um jantar pelo qual eu morro de inveja. Imagine um grupo de intelectuais bebendo, fumando, contando histórias, tocando piano, discutindo, concordando, rindo. Você não ia querer estar lá?

Este também foi, de longe, o filme mais bem-vestido que vi no festival. Talvez porque sejam pessoas reais em suas próprias roupas? Talvez porque, nos anos 70, as pessoas simplesmente se vestissem melhor do que a gente hoje? A sala está repleta de ternos incríveis com lapelas afiadas e alongadas, camisas estampadas com golas exageradas, gravatas largas e calças folgadas. Vestidos de renda elegantes e bijoux extravagantes… Precisamos resgatar esse nível de opulência. Se você juntasse as versões contemporâneas dessas figuras e organizasse um jantar com todas elas no mesmo lugar, será que a imagem seria tão boa assim? Eu diria que não.

The Invite
Dirigido por Olivia Wilde

Foi noticiado que The Invite, de Olivia Wilde, inflamou uma velha e clássica guerra de lances entre estúdios em Sundance após sua estreia no festival. Pelo que entendi, isso é algo que não tem acontecido com frequência nas últimas edições. As ofertas rolaram por cerca de 72 horas e resultaram em uma aparente aquisição de US$ 15 milhões pela A24. A atenção que o filme despertou nas discussões online e no podcast The Town, de Matt Belloni, me fez achar que esse era um título obrigatório no festival. Porém, o público de Sundance tem fama de supervalorizar alguns filmes durante o circuito de exibições e, quando eles chegam ao grande público, esse hype às vezes simplesmente se esvai.

The Invite rendeu algumas das gargalhadas mais altas que ouvi no festival. Teve momento em que o público ria tanto que eu não conseguia escutar as falas seguintes. O filme remete àquelas comédias sexuais divertidas dos anos 60 e, em alguns trechos, me lembrou o clássico de Mike Nichols, Carnal Knowledge. Os créditos iniciais são uma delícia e parecem claramente uma homenagem à sequência original de abertura de Thomas Crowne Affair. Mas o filme pega as aventuras sexuais de antigamente e atualiza a narrativa para dialogar com o zeitgeist sexual do século 21.

A trama acompanha um casal engessado (Seth Rogen e Olivia Wilde) que convida seus vizinhos mais desencanados (Penelope Cruz e Edward Norton) para jantar. Os personagens de Rogen e Wilde discutem a cada passo em falso, enquanto Cruz e Norton funcionam como contrapontos perfeitos. O filme toma um rumo completamente maluco quando os personagens de Cruz e Norton começam a se abrir sobre seu relacionamento não monogâmico e suas experiências com sexo em grupo, instigando o interesse do casal de Rogen e Wilde.

The Invite é engraçado — até a hora em que deixa de ser. A maior parte das risadas vem da tensão entre os personagens de Rogen e Wilde, que parecem ter parado de se comunicar (e de transar) um com o outro há algum tempo. É como se vivessem duas realidades distintas e, no começo, isso funciona como comédia. Mas, à medida que o filme se aproxima do fim, os dois percebem que o capítulo deles como casal provavelmente vai terminar em divórcio, o que rende uma cena final bem sóbria — embalada por um tema de piano melancólico composto por Dev Hynes.

Outros destaques: a trilha original do frontman do Blood Orange intensificou e dramatizou a história, mas também trouxe um toque de camp que manteve tudo leve. É um filme divertido para ver com uma plateia animada. Dá para entender por que os estúdios sentiram necessidade de disputar esse título. Talvez seja o filme mais mainstream e voltado para o público que vi nesta passagem por Sundance. Aposto que a A24 está sentindo cheiro de mais um sucesso de bilheteria em comédia romântica, como aconteceu com Materialists no verão passado. Aposto que eles estão certos.

I Want Your Sex
Dirigido por Gregg Araki

O tão aguardado retorno de Gregg Araki à tela grande finalmente chegou! I Want Your Sex é o primeiro filme do autor queridinho do cinema cult em mais de uma década. Foi, de longe, o meu favorito do festival — e não apenas porque sou muito fã do Araki. É diversão ininterrupta. Entretenimento puro. E ainda vem recheado de piadas bem explícitas, batida após batida, do início ao fim.

Os filmes de Gregg Araki são sempre um deleite visual quando o assunto é estética. Ele tem um gosto impecável. É famoso por seus designs de produção elaborados e exagerados. Os interiores de The Doom Generation e Nowhere parecem ter saído direto de um anúncio de moda dos anos 90. I Want Your Sex retoma um pouco essa estética, mas com um leve toque distorcido, bem espelho torto da Gen Z. Eu amo a atenção aos detalhes no figurino de seus filmes. Araki é um nerd de punk rock e suas produções sempre trazem as melhores camisetas gráficas. Nesta, vemos Cooper Hoffman com uma tee do Sonic Youth e Chase Sui Wonders usando uma camiseta do Spahn’s Movie Ranch.

Falando em Cooper Hoffman, ele é uma estrela em formação. Tanto ele quanto Olivia Wilde se entregam completamente em cena. Você vai entender o que quero dizer quando assistir. Wilde e Hoffman vivem uma relação dom/sub que acaba explodindo na cara dos dois e virando suas vidas do avesso. A paleta de cores é incrivelmente refrescante para um filme atual — nada de cinzas sem graça e tons apagados. Verdes, rosas, azuis vibrantes por todos os lados. Ver algo como Cooper Hoffman de sutiã e calcinha, engatinhando pelo quarto enquanto Olivia Wilde, em lingerie femdom, puxa a calcinha dele para baixo para humilhá-lo e dar palmadas no bumbum nu simplesmente não é o tipo de entretenimento que você vê em uma sala lotada todos os dias. A plateia estava elétrica, entre gargalhadas e suspiros. Parecia até show.

I Want Your Sex é aquele tipo de filme independente, totalmente guiado por um autor, que remete aos velhos tempos de Sundance. É ousado, controverso e com certeza vai deixar muita gente desconfortável. É ótimo ver um filme de Gregg Araki conseguir financiamento hoje em dia e ainda encontrar espaço aqui no festival. É exatamente o tipo de obra que eu vim buscar. Porém, no momento em que escrevo, ele ainda, tristemente, não foi adquirido por nenhum estúdio ou distribuidora.

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