Pode até surpreender algumas pessoas, mas a carreira de Tiger Woods rende material de sobra. São longos períodos de domínio absoluto, questões pessoais expostas em público, lesões, voltas por cima e um arco de redenção digno de roteiro de filme do Christopher Nolan. E basta passar poucos minutos rolando o Instagram para dar de cara com um moodboard do Tiger do fim dos anos 90.
Antes de se tornar profissional e assinar com a Nike, Tiger se vestia como um garoto que colocava o coração na manga e puxava peças de um armário escuro às 7 da manhã, antes da escola. E, de algum jeito, funcionava. Os chapéus de palha, as polos de corte quadrado, as estampas de bandana e o color blocking ousado. Tudo isso virou referência de como o golfe era antes de ser totalmente comercializado. Por isso não surpreende que a Sun Day Red volte sempre a essa era em busca de inspiração.
Tiger também. Mas, para ele, aquelas polos, que um dia ficaram guardadas em um quarto da casa da mãe, já falecida, não são material de moodboard. São memórias palpáveis, como uma música que te transporta para um tempo e lugar específicos. A cápsula ’96 Throwback, que a Sun Day Red lançou em torno do Genesis Invitational desta semana, tem como peça âncora um dos tops mais icônicos dele dos anos 90.
“[Tiger] é muito apegado aos tempos de amador”, contou Cajé Moye, diretor criativo sênior da Sun Day Red, antes do lançamento. “Ele acabou de fazer 50 anos, então está super nostálgico, como todo mundo. E ele tem uma cabeça maluca, parece que lembra de tudo da própria carreira. Ele olha para uma camisa e fala: ‘Cara, eu usei isso em 1991, na primeira rodada, e fiz 82’.”
Assim como relembra a última volta de um major detalhando até o taco que usou no 18, Tiger guarda as roupas no corpo como um sentimento, não só como uma imagem.
“Ele olha para algumas dessas peças e diz: ‘Cara, eu usava esse xadrez no Open Championship, e lembro de uma vez que choveu e aconteceu isso e aquilo’”, conta Moye. “Aí ele senta e começa a contar histórias a partir dessas peças.”
Isso não quer dizer que Tiger fosse indiferente ao estilo. Ele era um garoto do sul da Califórnia que amava esportes e, com uma ajudinha da mãe, Kultida, misturava cores, referências e silhuetas com a mesma liberdade de uma bola em efeito contornando uma árvore.
“Ele simplesmente vestia o que desse na telha. Pegava uma peça só porque gostava das cores. Um bucket hat? Claro, por que não. E podia estar com um boné de basquete do Georgetown Hoya, porque era completamente fissurado em esportes. Então ele vivia de bonés esportivos… calças de pregas, de perna larga. Agora isso tudo voltou a ser muito cool.”
O mais interessante é como essas referências chegam até hoje. Em um mundo em que o estilo competitivo costuma pender para o lado seguro e voltado à performance, a estética do Tiger dos anos 90 parece um sopro de ar fresco. As estampas e silhuetas que já foram taxadas de bregas agora estão sendo recicladas por uma geração mais jovem — incluindo o próprio filho de Tiger, Charlie.
“O curioso é que o Charlie agora é um adolescente no ensino médio e está virando um belo jogador de golfe. E ele passou do ‘Pai, você não é legal’ para o ‘É, meu pai é bem legal’”, diz Moye. “Tiger pode olhar para uma estampa e dizer: ‘Ah, não sei, isso parece meio exagerado’, e o Charlie responde: ‘Você é louco, isso é incrível’. No fim das contas, ele vive furtando peças do closet do pai.”
As cápsulas nostálgicas da Sun Day Red ainda tocam fundo na memória afetiva, mesmo sem um Tiger em plena atividade vestindo tudo isso aos domingos. Mas a força real dessa era não está só nas imagens, e sim no que elas representam. Dá para vender uma estética, mas não dá para fabricar um sentimento.
Em um mundo em que o que vemos na TV é cada vez mais roteirizado e os momentos culturais são encenados para consumo rápido online, o começo da trajetória de Tiger lembra que até as imagens esportivas mais icônicas começaram com um garoto simplesmente se vestindo.