A divertida pós-vida do império em “I, Pet Lion”, de Mohamed Monaiseer

Mohamed Monaiseer "I, Pet Lion" Art Basel Qatar Interview
Photo: Karen Dexter Photography. Courtesy of the artist and Gypsum Gallery.
Mohamed Monaiseer "I, Pet Lion" Art Basel Qatar Interview
Photo: Karen Dexter Photography. Courtesy of the artist and Gypsum Gallery.

Desde que a arte nos conta uma história de beleza, elatambém nos conta outra sobre poder. O artista egípcio Mohamed Monaiseerse ancora nessa dualidade em sua série “I, the Pet Lion”, recentemente apresentada com a galeria cairota Gypsum Gallery na Art Basel Qatar, explorando como a história colonial se infiltra em objetos lúdicos “sedutores, porém insidiosos”. Embora cintilantes, majestosos e fantasiosos, as obras de Monaiseer nãovisam suavizar as arestas do poder, e sim expor como as estéticas da dominação se disfarçam até nos rituais mais banais do cotidiano.

Monaiseer rastreia como a linguagem do conflito se infiltra naquilo que entendemos como brincadeira — se a guerra é um jogo, as pessoas são suas peças. Tabuleiros de xadrez e jogos de Ludo surgem ao lado de escudos e estandartes adornados com criaturas míticas, evocando relíquias da infância enquanto apagam as fronteiras entre fantasia e guerra. O próprio leão encarna de forma exemplar essa contradição: ao mesmo tempo guardião e predador, espelha a maneira como o poder se apresenta como acolhedor, mesmo permanecendo intrinsecamente violento.

Em uma composição hipnótica de pintura, bordado e aplicações de khayamiya, o artista convoca os gestos repetitivos e meditativos da arte islâmica, ao mesmo tempo em que, com sutileza, sabota a precisão: bordas puídas e leves assimetrias racham a ilusão de ordem, revelando as fissuras em sistemas que se orgulham de controlar tudo. Na esteira da Art Basel Qatar, conversamos com Monaiseer sobre “I, the Pet Lion” e as muitas faces do poder. Continue a leitura para a entrevista completa

Mohamed Monaiseer "I, Pet Lion" entrevista Art Basel Qatar

Photo: Karen Dexter Photography. Courtesy Of The Artist And Gypsum Gallery.

Mohamed Monaiseer "I, Pet Lion" entrevista Art Basel Qatar

Photo: Karen Dexter Photography. Courtesy Of The Artist And Gypsum Gallery.

Mohamed Monaiseer "I, Pet Lion" entrevista Art Basel Qatar

Photo: Karen Dexter Photography. Courtesy Of The Artist And Gypsum Gallery.

Mohamed Monaiseer "I, Pet Lion" entrevista Art Basel Qatar

Photo: Karen Dexter Photography. Courtesy Of The Artist And Gypsum Gallery.

Mohamed Monaiseer "I, Pet Lion" entrevista Art Basel Qatar

Photo: Karen Dexter Photography. Courtesy Of The Artist And Gypsum Gallery.

Como você descreveria a sua prática artística?
Édifícil definir a minha prática; cada projeto começa como uma exploração distinta. Eu parto do desejo de compreender os acontecimentos e condições que me cercam e, então, busco a linguagem visual mais adequada para traduzir essa perspectiva em uma forma tangível.

Quais foram algumas das suas primeiras influências e como elas te conduziram aos temas e focos centrais do seu trabalho hoje?
Eu comecei com um foco na materialidade e na decadência. Sempre me fascinaram os efeitos transformadores do tempo sobre objetos e obras de arte, e procurei destilar esse processo dentro do meu próprio trabalho. Essa preocupação continua central hoje — muitas das minhas peças carregam uma sensação de idade, erosão e história acumulada.

Conte sobre “I, the Pet Lion”. Como surgiu esse conjunto de trabalhos?
O projeto começou após minha primeira visita à Inglaterra, quando senti uma tensão entre a admiração pelo que vivi ali e a consciência das histórias coloniais que tornaram tudo isso possível — narrativas ligadas à extração, à exploração e aos efeitos persistentes que elas têm sobre o meu próprio contexto.

“I, Pet Lion” investiga como os sistemas contemporâneos normalizam o poder imperial e moldam a consciência coletiva. Reflete sobre como autoridade, pertencimento e submissão são inculcados, muitas vezes desde a infância, e como violência e dominação podem se camuflar como legitimidade ou proteção. A obra aborda como a ocupação distorce a identidade cultural e aprisiona sociedades entre um passado expropriado e um presente comprometido. Também considera como os indivíduos são reduzidos a instrumentos dentro de estruturas políticas e econômicas mais amplas e como ciclos de destruição e reconstrução são fabricados para sustentar o controle.

Eu exploro essas ideias por meio de metáforas como jogos e brincadeiras. Jogos infantis espelham sistemas adultos: Ludo se torna uma metáfora condensada da expansão colonial, enquanto o xadrez evoca estratégia e guerra.

Mohamed Monaiseer "I, Pet Lion" entrevista Art Basel Qatar

Photo: Karen Dexter Photography. Courtesy Of The Artist And Gypsum Gallery.

Mohamed Monaiseer "I, Pet Lion" entrevista Art Basel Qatar

Photo: Karen Dexter Photography. Courtesy Of The Artist And Gypsum Gallery.

Mohamed Monaiseer "I, Pet Lion" entrevista Art Basel Qatar

Photo: Karen Dexter Photography. Courtesy Of The Artist And Gypsum Gallery.

Mohamed Monaiseer "I, Pet Lion" entrevista Art Basel Qatar

Photo: Karen Dexter Photography. Courtesy Of The Artist And Gypsum Gallery.

“Cada tecido guarda uma memória suspensa entre a ternura e a brutalidade.”

Como você usa o fazer manual e o têxtil como meios de expressar memórias coletivas ou pessoais?
A arte é uma linguagem visual construída a partir de ferramentas e técnicas, sejam artesanais ou industriais. O fazer manual carrega uma energia humana — à medida que ele se reduz, os traços de humanidade se apagam. Eu incorporo o artesanato para preservar essa presença e refletir sobre como a mecanização foi, aos poucos, deslocando-a.

Os têxteis, em especial, me interessam por sua intimidade com o corpo. Eles existem em espaços de cuidado e proteção — roupas, lençóis, interiores domésticos —, mas também na violência, como revestimentos de maquinário militar. Cada tecido guarda uma memória suspensa entre a ternura e a brutalidade.

Você pode explicar sua escolha de animais nessas obras e como eles incorporam a dualidade entre controle e jogo?
Os animais são reflexos potentes da condição humana — no instinto, na emoção, no comportamento. Eles nos lembram que, sob a retórica da civilização, continuamos regidos por estruturas primárias de dominação e sobrevivência.

Isso se conecta à minha investigação sobre controle e jogo. Assim como nos jogos de tabuleiro, como Ludo ou xadrez, sistemas simbólicos de brincadeira revelam estruturas mais profundas de poder, estratégia e submissão. Eles moldam o pensamento enquanto mascaram suas consequências, operando em uma ambiguidade sedutora, porém perigosa.

O que você espera que o público leve dessa experiência?
Eu espero que as pessoas reconheçam a arte como uma linguagem em si. Quero que o trabalho dialogue com questões humanas reais, em vez de existir apenas como prazer visual. Cada peça nasce de anos de aprendizado e prática, e espero que seja recebida com a mesma seriedade, abrindo espaço para novas formas de ver e compreender.

Erin Ikeuchi Editor, Hypeart

Erin Ikeuchi is a New York-based writer focused on the intersection of contemporary art and culture. Her work spotlights stories, people and moments powering art’s new league, from icons to underground legends. Her formal background in anthropology informs a curious, cross-cultural eye for art where it’s least expected. Since joining Hypebeast in 2024, where she spearheads art-related content, she’s contributed hundreds of articles, including industry news, features and interviews, alongside serving as lead curator for ‘Under the Same Sky,’ Hypeart’s 2026 exhibition with Bonhams.

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