O retorno do Clipse é daqueles que merecem ser estudados.
Como não poderia ser diferente, a volta de Pusha T e Malice à cena, como uma unidade familiar de hip hop afiadíssima e turbinada, sacudiu tudo e dominou completamente o zeitgeist musical.
Quase duas décadas depois do lançamento de Til the Casket Drops em 2009, os irmãos da Virginia levantaram o véu sobre um plano de reunião iminente, mantendo tudo meio vago a princípio. Desde a pausa da dupla, Push e Malice mergulharam em suas discografias solo, se reencontrando esporadicamente em participações pontuais em Jesus Is King (“Use This Gospel”) e em I Know Nigo (“Punch Bowl”), além de uma colaboração surpresa em It’s Almost Dry em 2022.
O primeiro sinal concreto desse retorno veio em junho de 2024, durante o desfile Louis Vuitton Spring/Summer 2025 de Pharrell, em Paris, quando a nova faixa do Clipse, “Birds Don’t Sing”, estreou na trilha imersiva de passarela. Depois do show, o Clipse confirmou que havia um novo álbum a caminho; um que, assim como Hell Hath No Fury, foi produzido inteiramente por Pharrell e gravado em Paris, na sede da Louis Vuitton. Eles também confirmaram que o quarto álbum de estúdio se chamaria Let God Sort Em Out.
O primeiro single só chegaria quase um ano depois, “Ace Trumpets”, em maio de 2025. Originalmente previsto para 2024, o lançamento enfrentou atrasos na Def Jam, o que levou o Clipse a assinar um acordo de distribuição com a Roc Nation, de Jay-Z, e lançar Let God Sort Em Out de forma independente.
“So Be It” foi revelada exclusivamente no YouTube e no Instagram (com “So Be It Pt. II” aparecendo como prévia na passarela Louis Vuitton Spring/Summer 2026, mas nunca chegando a ser lançada), e “Birds Don’t Sing” e “So Far Ahead” chegaram às DSPs poucas horas antes do lançamento independente de Let God Sort Em Out’ em 11 de julho.
Impulsionado por uma intensa rodada de entrevistas, o LP rapidamente recebeu uma enxurrada de elogios, garantindo espaço em várias listas de “Álbum do Ano” e afins. Um retorno bem-sucedido em definição de manual, que só se consolidou ainda mais quando chegou a temporada de indicações ao Grammy.
A última vez que o Clipse havia sido indicado a um Grammy foi em 2003, pela participação em “Like I Love You”, de Justin Timberlake. Vinte e três anos depois, os Brothers Thornton dominaram a lista de indicações, emplacando cinco categorias: Álbum do Ano, Melhor Álbum de Rap, Melhor Performance de Rap por “Chains & Whips”, Melhor Canção de Rap por “The Birds Don’t Sing” e Melhor Clipe por “So Be It”.
Sem querer ficar batendo na tecla dos números, mas, em um ano em que o Clipse apresentou resultados impressionantes, para dizer o mínimo, os irmãos levaram para casa 20% de aproveitamento nas indicações na noite do Grammy, vencendo em Melhor Performance de Rap. Um dado que muitos encararam como um certo “desprezo” diante do potencial, a presença do Clipse na maior noite da música, porém, significou muito mais do que a taxa de vitórias daquele domingo. Antes mesmo da cerimônia, King Push e Malice marcaram território em uma série de eventos-chave da semana do Grammy.
Na quinta-feira à noite, os irmãos subiram ao palco do Recording Academy Honors Presented By The Black Music Collective, apresentando um set atemporal que ia de “So Be It” a “Grindin”. Já a sexta-feira foi marcada pela celebração de Let God Sort Em Out no Soho House, em Beverly Hills, comandada por Clipse e Pharrell. De lá, eles foram headliners da United Masters Celebration of Independence –– evento aberto ao público ––, onde apresentaram um set extenso de clássicos e de faixas de Let God Sort Em Out favoritas. Pharrell ainda deu uma passada relâmpago no palco – coisa de um minuto – e assistiu ao resto do show inteiro do camarote VIP. P acompanhou sua própria produção lá de cima, em um encantamento tão grande quanto o do público.
O domingo de Grammy não rendeu os números que muita gente esperava, mas, no palco, a dupla entregou uma performance impactante de “So Be It” ao lado de Pharrell. Neve caía sobre o trio em looks monocromáticos, que apresentou um show hipnótico com o apoio do coral Voices of Fire, da própria Virginia.
A cena é perfeita para resumir essas lendas do hip hop. Para o Clipse, não se trata de números ou streams, mas de comunidade. Mais de 20 anos depois do primeiro álbum, os rappers agora recordistas seguem representando o seu povo, colocando a conexão humana e o orgulho da terra natal acima de qualquer coisa.
Push e Malice contam mais detalhes sobre essa trajetória de retorno, à luz de uma carreira inteira moldada pelo chamado coke-rap.
A última vez em que vocês foram indicados ao Grammy foi em 2003, por “Like I Love You”. Volta comigo para o Clipse de 2003 – como vocês se descreveriam naquela época?
Malice: Eu diria que somos praticamente os mesmos. A mesma fome, o mesmo foco, a mesma competitividade e a mesma confiança no nosso próprio talento e na nossa criatividade. Naquela época, claro, não tínhamos o benefício da experiência, e muita coisa parecia nova, mas sabíamos que estávamos exatamente onde deveríamos estar.
O que vocês usaram no Grammy de 2003?
Pusha T: Olha, a gente estava pronto para a neve! Malice usava um casacão tipo snorkel oversized, e eu estava com um puffer enorme. Jeans largões. Timbs. Eu tinha um bucket hat. O visual estava muito em dia para aquela época. Independentemente do evento, quando a gente saía, você sabia que ia ser no estilo.
Avançando para este ano: cinco indicações. Qual foi o primeiro pensamento ou reação de vocês quando receberam essa notícia?
Pusha: Entrando nessa fase, estávamos super confiantes de que tínhamos feito uma obra que merecia ser reconhecida. Não vou fingir que isso não era um objetivo. Somos competitivos, cara. Queremos competir – e ganhar – no nível mais alto. Mas receber cinco indicações, incluindo algumas que nem esperávamos, como Melhor Clipe e Álbum do Ano, foi uma surpresa incrível e uma verdadeira honra. Essa indicação a Álbum do Ano é surreal. A Hennessy ainda teve a gentileza de criar coquetéis sob medida com nomes de faixas de Let God Sort Em Out. A gente tem um Espresso Martini com Hennessy chamado “So Far Ahead”, criado em colaboração com a Grindin Coffee.
Que conselho vocês dariam ao Clipse de 2003?
Malice: Eu não sei se existe um conselho que eu pudesse dar que mudasse o resultado, porque eu realmente amo o desfecho, e tudo aconteceu de acordo com o plano de Deus. Eu simplesmente diria: “Continuem acreditando em vocês e no talento de vocês, que o resto se ajeita.”
Como vocês viram a indústria da música mudar desde então?
Malice: Para ser sincero, nós vimos de tudo. E, no fundo, continua sendo a mesma coisa de sempre. A grande mudança é que hoje temos a possibilidade de ser independentes, criativos e trabalhar com parceiros que entendem a nossa visão. Isso é uma bênção.