Aos 25 anos, a visão criativa de Lelo já é incrivelmente afiada. Tanto que o artista de Detroit, que continua se firmando como uma força incendiária no rap contemporâneo, condensou sua filosofia singular em apenas duas palavras.
“New Detroit” é moldado por todas as figuras pioneiras, gêneros e movimentos que antecederam Lelo: enraizado na história, mas retrabalhado para o futuro. Ele chama isso de uma “Renascença”, um caldeirão de ideias novas que, acima de tudo, se apoia no alicerce sonoro da cidade.
Em seu álbum de estreia de estúdio, também intitulado New Detroit, Lelo bebe fundo na infinidade de influências musicais da sua cidade natal, recorrendo aos sons da infância para afiar sua própria visão artística. A cena eletrônica de Ghettotech (que, ele lembra, era o que a mãe ouvia enquanto se arrumava para sair) é um dos fios-condutores do disco, ao lado de outros nichos queridos, como a interpretação da Motor City para o house e diferentes subgêneros de hip-hop.
Lelo gravou o álbum — um projeto totalmente solo — no próprio quarto, em Detroit, onde ainda passa a maior parte do tempo. Pelo menos até o lançamento.
Com isso, o legado de Lelo já extrapolou o bairro onde cresceu, seu estado natal e até mesmo o “underground” — sobre o qual ele tem algumas opiniões.
“Não sei onde encaixar meu som. Tenho a sorte de que muita gente que curte o mainstream gosta do que faço — e a galera do underground também”, reflete ele sobre sua persona sem rótulos. “Tô só sendo eu.”
Ele trafega na própria pista, aquela que ziguezagueia entre o underground e o mainstream — e pisa fundo: há pouco, deu uma escapada para curtir a Fashion Week em Paris, voltou rapidinho pra casa antes desta maratona de entrevistas… que antecede sua primeira turnê como headliner, com estreia em Chicago em 8 de setembro.
Lelo diz que, embora seja profundamente grato pelas viagens que a carreira lhe proporciona, gostaria de passar mais tempo em casa — sobretudo agora, já que as primeiras pessoas com quem quer comemorar cada lançamento são a família.
A meta não é bater um número de streams nem ganhar um certificado da RIAA. É comprar uma casa para a mãe.
Talento genuinamente local, Lelo homenageia as ruas da cidade em cada New Detroit faixa. Batemos um papo de trinta minutos sobre a influência de Detroit que permeia esse hipnotizante debut lançado por uma grande gravadora.
Você acaba de lançar seu primeiro disco por uma grande gravadora — como está se sentindo?
Estou bem. Fiquei estressado nas últimas semanas que antecederam o lançamento e agora sinto que posso, meio que, desligar o cérebro por um tempinho.
New Detroit teve seu lançamento ligeiramente adiado — como você bloqueia o ruído externo e mantém o foco diante de contratempos que fogem do seu controle?
Mantenho um sistema de apoio muito forte ao meu redor. Quando dou uma escorregada, tenho gente que me puxa pra responsabilidade. É família de verdade — literalmente. [aponta para o irmão mais novo sentado do lado de fora da sala]
Você passa muito tempo com sua família? Eles ainda moram em Detroit?
Sim, a maior parte da minha família está em Detroit. Três dos meus quatro irmãos moram lá. Sou o mais velho. Fico em Detroit com frequência, mas ultimamente tenho estado mais em Nova York. Tenho ido e voltado bastante.
Como você se sente em relação a esse estilo de vida?
Depende. Na maioria das vezes eu curto, mas às vezes — especialmente agora, logo após lançar um álbum — só quero ficar perto da família e comemorar com eles. Ainda assim, sou grato por todas as viagens.
Em uma entrevista recente, você comparou seu processo de fazer música ao de um estilista criando roupas. Pode explicar melhor?
O ponto principal dessa mentalidade é minha recusa em jogar ideias fora. Eu guardo muita coisa e deixo ali, arquivada, até sentir que é a hora certa de gravar ou lançar. Tenho músicas de New Detroit guardadas há mais de dois anos. Às vezes escrevo duas linhas, anoto e só volto a elas duas semanas depois. Raramente termino uma faixa na primeira tentativa.
Como você sabe quando uma música está pronta?
Eu não sei.[risos]Muita coisa só fica pronta quando, literalmente, o tempo acaba. Foi assim com a maioria das faixas de New Detroit. Não havia checklist nem nada que eu seguisse para cada música. Era mais um “Beleza, o tempo acabou.”
Você é perfeccionista?
Não! Nem é isso. Eu só encontro espaços vazios na música que quero preencher. Ou vejo alguém fazer algo muito foda e penso: “Droga, eu devia ter feito algo parecido”, aí tento reinterpretar do meu jeito.
O que você anda ouvindo agora?
Pra ser sincero, qualquer coisa que não seja rap. Tenho mergulhado no jazz — todos aqueles clássicos de Detroit. Tô sempre ouvindo Michael Franks. E também bastante house.
Crescendo cercado de música, quando isso se tornou paixão para você e quando decidiu que queria realmente fazer música?
Quando eu estava na escola primária, minha turma fez um show de Natal e eu fiquei com a parte de rap. Meus pais viram e ficaram super empolgados. Todos os amigos que tenho até hoje também estavam comigo naquela época, o que é muito especial. Enfim, esse foi o momento que plantou o amor pela música em mim.
Como você descreveria sua relação com seus fãs?
Não vejo como uma relação artista-fã; pra mim é mais pessoa a pessoa. Ainda estou me acostumando com essa coisa de “ter fãs”. De onde venho, praticamente todo mundo é famoso do seu jeito, então “conhecer fãs” nem parece um encontro de fã.
Tony Seltzer produziu algumas faixas de New Detroit. Como trabalhar com ele te influenciou?
O mano demonstrou muito carinho. Eu devo muito a ele. Desde o primeiro dia, nunca quis trabalhar com alguém que eu não conhecesse pessoalmente, e ele foi um dos primeiros a abraçar a parada. Quando nos encontramos, rolou química e tudo fez sentido.
Você também recebeu um co-sign do Earl Sweatshirt logo no começo da carreira. O que isso significa pra você?
Foi enorme. Só de estar na mesma sala que ele já foi insano. Pra mim, ele é um dos maiores rappers vivos. Fiquei de queixo caído. Isso reacendeu em mim um amor renovado pela arte — não que eu estivesse perdendo, mas me lembrou o quanto eu quero isso.
Quem mais te inspira, dentro ou fora da música?
Nem é exatamente um “quem”, é mais o que vejo ao meu redor. Assisto a muitos filmes; vejo um filme bem antigo e penso: “Como diabos isso ganhou vida?” — e essa ideia me dá energia pra criar. Musicalmente, porém, Michael Franks. Vou reverenciar Michael Franks pelo resto da vida [risos]. André 3000 é outro gigante. Quando eu era mais novo, Big K.R.I.T. E, claro, o Earl.
Você esteve em Paris na última Fashion Week — moda é uma paixão pra você? Quais são suas marcas preferidas?
Com certeza. Yohji Yamamoto é meu favorito de todos os tempos. Margiela. McQueen. Curto muito as marcas japonesas.
Você se vê criando roupas algum dia?
100%. Assim que eu tiver tempo. Não quero fazer algo meia-boca.
Além disso, há outros projetos paralelos que gostaria de explorar?
Sim — fiz faculdade de artes, com ênfase em pintura. Assim que tiver espaço na agenda, quero produzir mais obras.
Nesse sentido, como você concebeu as artes visuais do álbum?
Costumo agir no impulso e depois deixar a ideia maturar por bastante tempo pra ver se ela se sustenta. O motivo do cachorro neste álbum, por exemplo, grudou em mim e quase virou parte do mindset “New Detroit”.
Falando nisso, você fala bastante sobre o conceito de “New Detroit” e o encara quase como uma Renascença de ideias que saem da cidade. Conte mais sobre como surgiu essa ideia e como ela evoluiu.
Nasceu de mim, compondo, quando nada parecia se encaixar. Aí começou a funcionar, e acho que foi um comentário aleatório nas redes que disparou o conceito. O comentário nem dizia “New Detroit”, mas acendeu algo na minha cabeça: “Ok, minha música tá ressoando”. “New Detroit” é, sim, uma Renascença no sentido de trazer ideias novas com meu tempero, mas também é uma homenagem ao som antigo de Detroit que eu cresci ouvindo. A identidade de um Detroiter é muito importante neste álbum.
A cena eletrônica de Detroit, especialmente o Ghettotech, impactou fortemente este projeto. Por que era importante abraçar essa influência?
Eu não poderia me autointitular “New Detroit” nem dizer que represento a cidade sem incluir o Ghettotech. Isso era fundamental. Era a música que minha mãe ouvia, a geração antes da nossa ouvia, a geração de agora ouve. É importantíssimo. Esse som tem um efeito diferente — eu precisava incluir.
Há outros gêneros que ganham destaque no disco?
Vários estilos da cena rap da cidade. No eletrônico, se não é Ghettotech, é house. Tem muito DJ talentoso surgindo em Detroit neste momento.
Como você se sente quando as pessoas te rotulam de “underground”?
Não sei. Ser underground é legal. A própria natureza da indústria me deixou num certo limbo. Não sei onde encaixar minha música. Tenho a sorte de que quem curte o mainstream me acompanha, e a galera do underground também. Eu tô só sendo eu.
“Eu não posso me chamar ‘New Detroit’ nem dizer que represento a cidade sem incluir o Ghettotech. Isso era fundamental.”
A primeira faixa do álbum é “Soldier” e a última é “Survivor’s Guilt”. Sobrevivência é um tema do projeto?
Com certeza. E, pra ser honesto, eu nem pretendia que elas ficassem nessa ordem. Acho que é isso que torna tudo ainda mais especial. Fiz um monte de música e as mais coesas se destacaram. “Survivor’s Guilt” foi a primeira que gravei e acabou entrando.
Por que esse conceito era importante de abordar?
É coisa real de Detroit, coisa real de periferia. Eu me sinto sortudo por as coisas terem dado certo na minha vida, mas muito deste álbum é sobre amadurecer. Você perde muita gente, vê muita gente tomando decisões erradas.
Existem outros temas-chave no disco?
Boa parte dele acompanha minha história de amadurecimento: crescer, ficar mais velho. E com isso vêm relacionamentos, grana, família — tudo isso. O projeto é meu jeito, meio criptográfico, de refletir sobre isso.
O que mais de Detroit fica evidente ao longo do álbum?
Nem sei bem como explicar. Quando estou fora, as pessoas nem sempre percebem que sou de Detroit, mas quem é de lá reconhece na hora. É o jeito como a gente se porta — um certo brilho que ser de lá dá. Então é difícil responder, porque pra mim é algo natural, nada performático.
Como trabalhar de perto com a lenda de Detroit Babyface te impactou?
Isso selou tudo. Foi poético. Estar perto de alguém do mesmo lugar que você, nesse nível, é foda. Estar com ele me ensinou muita coisa. Ele colou no meu bairro, com a minha galera, no restaurante do meu avô. Não tem como replicar isso.
Qual é, pra você, a métrica definitiva de sucesso, de “dar certo”?
Quero continuar fazendo projetos dos quais me orgulho de verdade e, conforme eu cresça, ampliar meu impacto. Espero que, em cinco ou dez anos, “New Detroit” seja um império e vire algo que faça minha cidade crescer.



