Casio e sua icônica linha G-SHOCK conquistaram um espaço único no universo da relojoaria, impulsionadas por um legado de inovação incansável que nasceu longe dos ateliês tradicionais. Essa história começa em um lugar inesperado: um bairro residencial tranquilo e sofisticado de Tóquio, onde fica o Toshio Kashio Memorial Museum of Invention (também chamado de Casio Museum). Instalado na antiga casa do cofundador Toshio Kashio, o museu é um tributo ao seu lema: “criar algo a partir do nada”.
Esse mesmo espírito levou à primeira grande invenção da empresa, a calculadora totalmente elétrica 14-A, lançada em 1957. Do tamanho de uma mesa, a máquina revolucionou a forma de calcular graças à sua velocidade e ao teclado intuitivo, estabelecendo as bases da Casio Computer Co., Ltd. Depois de dominar o mercado de calculadoras de bolso, a Casio deu um passo decisivo rumo à relojoaria em 1974, com o Casiotron. Para a época, o modelo era revolucionário: trazia o primeiro calendário automático do mundo, que se ajustava sozinho ao número de dias de cada mês e aos anos bissextos. Apesar da resistência de um mercado acostumado a ver relógios como artigos de luxo, o uso pioneiro do plástico em um design ultrarresistente abriu caminho para a proposta de robustez que, mais tarde, definiria a G-SHOCK.
A G-SHOCK, lançada em 1983, nasceu para ser um relógio inquebrável. As vendas começaram devagar, até que sua adoção inesperada por skatistas norte-americanos a transformou em um ícone de resistência e estilo. Nos anos 1990, a Casio extrapolou limites com “relógios malucos” que integravam GPS, MP3 player, câmera e até funções de videogame. Hoje, o negócio de relógios é a principal fonte de receita da Casio, respondendo por cerca de 60% das vendas totais — uma virada e tanto para quem começou dominando o universo das calculadoras.
No coração da produção da Casio está a fábrica de Yamagata, unidade-mãe que fabrica de relógios premium ao pet de IA Moflin, passando por instrumentos musicais. Enquanto componentes gerais são feitos na China e na Tailândia, Yamagata foi projetada para máxima precisão, com plataformas à prova de terremotos e uma linha exclusiva chamada Premium Production Line (PPL).
Inaugurada em 2018, a PPL é o território dos técnicos Meister — a elite da Casio — responsáveis pela montagem dos modelos premium. Diferentemente do savoir-faire artesanal da relojoaria suíça, o sistema da Casio funciona como uma certificação interna rigorosíssima, quase uma trilha de carreira. Os Meisters ocupam o topo da hierarquia, um título reservado a pouquíssimos profissionais que superam exames internos difíceis. Muitos dos modelos high-end da G-SHOCK nascem nessa linha de montagem, cujo traçado lembra a letra “G”, daí o apelido interno “G-Line”.
Todo relógio G-SHOCK é projetado para honrar seu mantra de “Absolute Toughness”, passando por testes rigorosos que poucas marcas realizam. Nos primeiros ensaios, os protótipos eram simplesmente arremessados de janelas do terceiro andar; hoje, os 10 primeiros exemplares de cada lote de 500 unidades enfrentam provas controladas e ainda mais severas, garantindo durabilidade consistente. Esse compromisso com resiliência extrema transformou a G-SHOCK em sinônimo de robustez.
Em contraste com a precisão entregue pelos humanos, a estratégia da Casio para automação e IA busca um equilíbrio calculado. Enquanto os Meisters cuidam dos modelos premium, o clássico A159W comprova o poder das máquinas: desde 2018, o relógio é produzido de forma totalmente automatizada (com exceção da montagem da pulseira), o que gerou uma redução de cerca de 50% nos custos. Esse uso seletivo de automação mostra a habilidade da Casio de enxugar processos para ganhar eficiência sem abrir mão do toque humano em suas peças mais exclusivas.
Além da automação física, a Casio vem incorporando IA de forma estratégica em várias áreas do negócio — incluindo produtos como o Moflin, sua aposta em consumo movido a inteligência artificial. A visão da companhia, segundo Shinji Saito, General Manager of Product Planning, prevê a comunicação entre dispositivos: em breve, um G-SHOCK poderá monitorar à distância o status de um Moflin, por exemplo.
Mesmo assim, o uso mais marcante de IA na Casio está no processo de design assistido aplicado a modelos como o MTG-B4000. Takahashi Oh, Senior General Manager da Timepiece Business Unit, frisa que a tecnologia não existe para substituir a criatividade humana, e sim para potencializá-la. A empresa alimenta o sistema com seu vasto acervo histórico e, assim, gera “ideias expressivas” que talvez nunca surgissem naturalmente — um teste inicial com a referência G-D001 em ouro amarelo 18k, leiloada pela Philips em 2023, comprovou a eficácia do método. Embora a IA seja brilhante em especificações funcionais, o toque humano é indispensável para combinar elementos, pensar na ergonomia e adicionar aquela dose de emoção que faz um design ser realmente “cool”. Essa sinergia entre humanos e IA está alinhada à filosofia de “discovered cues” da Casio — manter a curiosidade acesa e perseguir o desconhecido.
Com mais de 50 anos de produção de relógios — 42 deles dedicados à G-SHOCK — os arquivos da Casio comprovam o compromisso de ultrapassar os limites da simples medição do tempo. Desde o primeiro Casiotron, de 1974, com calendário automático, a marca diversificou rapidamente. A evolução dos relógios digitais gerou criações inusitadas e inovadoras nas décadas de 1980 e 1990: modelos que funcionavam como controle remoto de TV, versões com dicionário embutido e até game watches, como a série “Cyber Cross”, que permitia partidas via infravermelho entre amigos. Também houve o primeiro player de MP3 em formato de relógio do mundo e um modelo capaz de estimar distâncias em mapas. Esse portfólio abrangente reflete a tradição da Casio em propostas fora da curva — e é justamente essa veia experimental que sustenta uma relação única com sua comunidade.
“A IA não pretende substituir a criatividade humana, mas ampliá-la.” – Takahashi Oh
Shinji Saito, General Manager of Product Planning, reconhece a força do engajamento dos fãs, especialmente no universo G-SHOCK. Ele observa que o sucesso estrondoso do GA-2100 foi uma reação orgânica do mercado. Da mesma forma, o DW-001J-1, de 1994, ganhou o apelido de “Jason” por lembrar a máscara do personagem dos filmes de terror. Embora esses nomes não sejam oficiais, Saito diz que os designers estão “superantenados no que rola por aí”. Eles acompanham as tendências, mas, no fim das contas, são os consumidores que decretam o sucesso de um relógio. Esse vai-e-vem cria um ciclo de feedback no qual os ícones batizados pelos fãs influenciam os rumos da marca.
O desejo de Saito de relançar a G-SHOCK DW-6400 “Gundam”, dos anos 90 — apesar do fracasso inicial de vendas — ilustra perfeitamente essa dinâmica. Ele acredita que “só a Casio consegue produzir um relógio assim” graças à estética volumosa e singular que, em sua visão, abriu caminho para os designs atuais. O mesmo vale para o modelo “Jason”, que a marca já trouxe de volta duas vezes.
Essa dinâmica interna mostra que o entusiasmo da equipe de P&D por designs pouco convencionais, mesmo sem sucesso imediato, é essencial para preservar a identidade singular da Casio e impulsionar novas tendências. No fim das contas, o legado da G-SHOCK se sustenta na filosofia de “Absolute Toughness”, entregando “beleza funcional” e valor emocional a quem prefere viver a vida sem se preocupar com o relógio.