A histórica ascensão de Grace Wales Bonner à Hermès
Um olhar sobre a trajetória de dez anos da estilista jamaicana-britânica até se tornar a primeira mulher negra a liderar uma grande maison de luxo.
A histórica ascensão de Grace Wales Bonner à Hermès
Um olhar sobre a trajetória de dez anos da estilista jamaicana-britânica até se tornar a primeira mulher negra a liderar uma grande maison de luxo.
Entre as estreias de estilistas na Dior, Chanel, Gucci, Versace e outras, a estreia de Louise Trotter na passarela da Bottega Veneta fez dela a única mulher a debutar como diretora criativa nas aguardadas passarelas da temporada de primavera-verão 2026 (SS26) — mas Trotter não ficará sozinha por muito tempo. Grace Wales Bonner foi anunciada como a nova diretora de moda masculina da Hermès, substituindo Véronique Nichanian, que deixará o cargo, após 37 anos, em 2026.
Como se a safra inédita de nomeações de diretores criativos da temporada já não fosse suficiente para sacudir o mundo da moda, a notícia do novo cargo de Grace Wales Bonner na Hermès representa um abalo sísmico vindo de uma das marcas de luxo mais exclusivas. Além de ser a primeira designer negra a assumir o comando da etiqueta de quase 200 anos, seu novo posto a torna a primeira mulher negra da história a liderar o design de uma grande maison.
Embora a nomeação da designer britânica independente tenha sido uma surpresa — anunciada poucos dias após a saída de Nichanian —, sua ascensão sólida e constante claramente a preparou para um posto de topo em uma maison de peso. Curiosamente, a designer já havia expressado, discretamente, o desejo de trabalhar com a Hermès anos atrás. “Um sonho meu seria trabalhar com uma marca de alfaiataria, porque isso está no cerne do que faço”, disse ela a System em 2019, citando “Hermès ou mesmo uma casa de alfaiataria da Savile Row.”
Embora seja tentador dizer que Wales Bonner “manifestou” esse cargo quando verbalizou esse desejo há seis anos, tal afirmação diminuiria o legado impressionante que a designer construiu para si. Desde que se formou na Central Saint Martins, em Londres, em 2014, e lançou sua marca homônima há dez anos, a designer acumulou inúmeras distinções por seu trabalho.
Apenas um ano após fundar a Wales Bonner, a designer venceu o prêmio Emerging Menswear Designer no British Fashion Awards, em 2015, e, na sequência, tornou-se a primeira designer de moda masculina a ganhar o LVMH Young Designer Prize, em 2016. Em 2019, ela recebeu o British Fashion Council/Vogue Designer Fashion Fund.
Sua visibilidade explodiu com a primeira parceria da marca com a adidas Originals, em 2020 — uma colaboração contínua que, desde então, projetou o nome da designer mundo afora. Os Sambas da colaboração Wales Bonner x adidas apareceram pela primeira vez na passarela em janeiro daquele ano, desempenhando um papel crucial ao reavivar a silhueta clássica com apelo contemporâneo. Em 2024 (e muitos Wales Bonner x adidas Sambas depois), o tênis havia retornado ao zeitgeist com força total.
Nos anos 2020, Wales Bonner continuou a ser reconhecida nas cerimônias mais prestigiadas da indústria da moda, levando o prêmio International Men’s Designer of the Year do CFDA em 2021. No ano seguinte, recebeu o Independent British Brand of the Year no Fashion Awards do BFC e foi condecorada com a honraria MBE (Member of the Order of the British Empire) pelos serviços prestados à moda.
O olhar intercultural e a abordagem pautada em pesquisa da designer a transformaram em uma voz respeitada nas artes, muito além da moda. Em 2023, foi anunciado que ela assinaria a curadoria de uma exposição com 40 peças no MoMA, em Nova York, destacando a diáspora africana por meio da arte. Após o encerramento da mostra no MoMA, em abril de 2024, o Metropolitan Museum of Art convidou a designer para integrar o comitê anfitrião do Met Gala 2025, centrado na exposição de figurino “Superfine: Tailoring Black Style”.
A notícia do novo cargo de Wales Bonner na Hermès chegou em um momento certeiro: 2025 já vinha sendo um ano marcante para a designer, não apenas por sua atuação no Met Gala, mas também pelo 10º aniversário de sua marca. À medida que o ano chega ao fim, sua entrada no universo das maisons de luxo é a joia da coroa de uma trajetória de dez anos.
Dado o mandato de quase quatro décadas de sua antecessora e o ritmo de evolução notavelmente conservador da Hermès, a nomeação de Wales Bonner é um momento decisivo — e bastante ousado — para a marca. Em comparação com maisons como Louis Vuitton, Balenciaga e Loewe — que há muito trocaram a herança inabalável pela disrupção criativa —, a casa de 188 anos tem sido lenta em abraçar a transformação.
A Hermès é notoriamente zelosa de seu DNA, combatendo produtos não licenciados como o NFT de 2023 “MetaBirkin” e chegando a vencer ações judiciais contra alegações de que restringe o acesso à icônica Birkin — forçando clientes a gastar milhares em outros produtos para ter direito à compra. Muitos criticam esse nível de exclusividade orquestrada como ultrapassado e hostil a novos consumidores. Será que o olhar diverso e externo de Wales Bonner pode finalmente mudar o tom?
O que a designer e a Hermès têm em comum é a atenção meticulosa ao ofício e à história pessoal. Ela não apenas consolidou sua expertise em alfaiataria tradicional, como também em inovação, atualizando estéticas europeias com seu ethos internacional. Suas colaborações com grandes instituições de arte e projetos de arquivo têm traduzido patrimônio cultural em design contemporâneo de impacto — uma habilidade essencial para qualquer designer que assume a direção de uma casa tão histórica.
Com desfile marcado para janeiro de 2027, a estreia de Grace Wales Bonner na linha masculina da Hermès já desponta como um marco na história da moda. Como primeira mulher negra a assumir o comando de uma grande maison, a designer jamaicano-britânica vem derrubando barreiras em um campo historicamente dominado por diretores criativos homens brancos. Em um poderoso desafio à exclusividade tradicional do luxo, a nomeação da designer pode muito bem ser a graça salvadora da Hermès.



















