Spencer Lewis leva “La Noche De Día” à Fundación La Nave Salinas, em Ibiza

Pinturas abstratas gigantes invadem o antigo armazém de sal dos anos 1940.

Arte
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Em cartaz até 8 de agosto, a Fundación La Nave Salinas apresenta La Noche De Día, mostra individual do artista norte-americano Spencer Lewis. Conhecido por suas pinturas ousadas e cheias de textura, Lewis apresenta uma nova série de peças em grande formato no espaço histórico — um antigo armazém de sal dos anos 1940, em Ibiza. A exposição comemora os dez anos da fundação e reforça sua missão de exibir obras desafiadoras, de forte presença física e carga emocional.

Com curadoria do fundador da La Nave, Lio Malca, a exposição levou quatro anos para ganhar forma. Malca foi imediatamente atraído pela energia bruta de Lewis e percebeu como a obra do artista poderia estabelecer um diálogo poderoso com as paredes de pedra do edifício. “O trabalho de Spencer não fica apenas pendurado nas paredes”, disse Malca. “Ele passa a fazer parte do pulsar do prédio.” A altura, a textura e a história do espaço deram à equipe a oportunidade de criar uma apresentação que parece imersiva, não encenada.

Para Lewis, o ambiente teve papel fundamental na formação do corpo final de obras. Ele descreve pintar em juta como algo ao mesmo tempo prático e simbólico, pois oferece durabilidade e honestidade material. A história do armazém de sal e os elementos de sal, ar e luz impulsionaram seu processo para um novo território. “Foi essa imersão sensorial completa, na montagem final, que de repente se tornou mais espiritual”, diz.

Conversamos com Spencer e Lio sobre esta exposição marcante. Leia a entrevista completa abaixo.

“A abstração é a condição por meio da qual interpretamos tudo, não apenas imagens.”

Você disse que a abstração parece mais uma condição do que um estilo. O que quer dizer com isso, especialmente nesta nova série?
Spencer Lewis: Tenho trabalhado bastante com IA ultimamente, então estou pensando em linguagem. Se encararmos a linguagem como um sistema de signos, nosso contato com o real já nasce abstrato. Somos moldados pela palavra; não dá para escapar disso. A abstração é a condição pela qual interpretamos tudo, não apenas imagens. Essa alienação representa um desafio. E não acho que sou o único que reage de forma violenta, para o bem ou para o mal. Mas não precisamos exatamente reparar esse hiato. Está tudo bem viver dentro da linguagem. Só não mije na minha perna e diga que está chovendo.

Por que você escolhe pintar em juta? O que esse material acrescenta à sua obra?
SL: É resistente. Aguenta tudo o que eu faço com ela: arrastar, sobrepor camadas, esticar e desesticar. A juta absorve alguns materiais e deixa outros repousarem na superfície. É porosa, fácil de costurar. Pode ficar marcada, mas permanece intacta. Também não carrega o mesmo peso histórico da tela de algodão; tem sua própria textura, seu passado — é uma planta, é um objeto. Essa materialidade, esse pé-no-chão, faz parte do trabalho. Ela serve de base para a pintura e, ao mesmo tempo, transforma a própria tinta em objeto.

Você foi influenciado por Hofmann e de Kooning no início da carreira. Como essas referências aparecem no seu trabalho hoje?
SL: Bom, como conheci esses artistas nos livros de arte da minha mãe, eles sempre me transportam ao momento em que decidi virar artista. Hofmann fala de espaço — de usar a cor para empurrar e puxar o espaço. De Kooning é, sobretudo, desenho, mas a emoção contida no gesto chega direto ao espectador. Para ser sincero, quase não penso mais neles, mas provavelmente ainda há um fantasma dos dois no meu trabalho, especialmente na relação com o quadrado.

La Nave já foi um armazém de sal. A história ou a atmosfera do lugar influenciaram sua abordagem para a mostra?
SL: Com certeza. Aquele prédio impõe respeito. Toda exposição é site-specific, mas é raro que o vínculo seja tão intenso. As ideias de sal, luz, ar e som empurravam a obra para algo ainda mais físico, mas foi essa imersão sensorial completa, na montagem final, que de repente se tornou mais espiritual. Foi isso que tornou a colaboração com Isaac e Lio tão empolgante. Eu não teria chegado lá sozinho.

“O trabalho de Spencer não fica apenas pendurado nas paredes; ele passa a fazer parte do coração do edifício.”

O que chamou sua atenção na obra de Spencer? Por que você sentiu que ela pertencia à La Nave?
Lio Malca: Quando vi as pinturas de Spencer pela primeira vez, fiquei imediatamente impactado pela energia bruta e explosiva delas. Cada obra parece uma erupção, quase como assistir ao Big Bang acontecer na tela. Na hora, visualizei como elas ressoariam contra as grossas paredes de pedra da La Nave, um espaço carregado de história. O diálogo entre suas superfícies viscerais e a arquitetura crua do antigo armazém de sal parecia inevitável. O trabalho de Spencer não fica apenas pendurado nas paredes; ele se torna parte do batimento cardíaco do edifício.

Esta mostra marca o décimo ano da fundação. Como ela reflete o que vocês vêm construindo?
LM: Chegar ao décimo aniversário da La Nave é um marco importante. Ao longo da última década, transformamos um espaço industrial em um polo cultural que acolhe vozes artísticas inovadoras. Trazer a mostra de Spencer para a La Nave este ano, após quatro anos de conversas e planejamento, parece o ápice da nossa trajetória até aqui. O trabalho dele encarna a energia, a ousadia e a ambição que definem nosso programa. Esta exposição é, ao mesmo tempo, uma celebração do que conquistamos e uma declaração de intenções para o que ainda está por vir.

As pinturas de Spencer são grandes e cheias de textura. Como vocês planejaram para que elas funcionassem em um espaço tão singular?
LM: A arquitetura da La Nave é crua; exige obras que consigam se sustentar dentro de um contexto tão poderoso. Com as peças monumentais de Spencer, pensamos a instalação como uma coreografia entre escala, textura, história e luz. A aspereza das paredes de pedra amplifica a fisicalidade das pinturas, enquanto a altura e a amplitude generosas permitem que elas respirem e dominem o espaço. A cenografia não buscou controlar o ambiente, mas sim permitir que as obras e o prédio travassem um diálogo.

Por que é importante manter a entrada gratuita e aberta ao público em Ibiza?
LM: Arte deve ser uma experiência compartilhada, não um privilégio de poucos. Ibiza é um lugar onde culturas se encontram, e manter nossas exposições gratuitas garante que todos — moradores, visitantes e amantes da arte — possam acessar arte contemporânea de nível mundial. Para mim, é essencial que a La Nave continue sendo um espaço de descoberta acessível, onde qualquer pessoa possa entrar e se emocionar com o que vê, sem barreiras — especialmente as crianças, de todas as idades. Todo verão recebemos jovens em nossos programas: com os pais, nos workshops de fim de semana do Kids Play, ou em visitas guiadas com as escolas, trazendo mais de mil crianças a cada temporada.

Que tipo de artistas ou projetos você espera trazer para a La Nave no futuro?
LM: Olhando para frente, quero continuar convidando artistas que desafiem percepções e criem experiências imersivas e transformadoras. Seguiremos apresentando artistas internacionais de renome, com diferentes formas de expressão, celebrando as práticas contemporâneas. Tenho especial interesse por projetos que dialoguem com a história, a materialidade e o ambiente — obras que pareçam vivas no espaço. A La Nave continuará sendo uma plataforma para declarações artísticas ousadas, seja de nomes consagrados ou emergentes, mantendo o espírito que marcou nosso primeiro decênio.

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