Do filme à fachada do M+: Greg Girard registra uma Hong Kong em transformação
O aclamado fotógrafo comenta sua carreira de décadas capturando o dia a dia vibrante das ruas da cidade.
Do filme à fachada do M+: Greg Girard registra uma Hong Kong em transformação
O aclamado fotógrafo comenta sua carreira de décadas capturando o dia a dia vibrante das ruas da cidade.
Em entrevista exclusiva à Hypebeast, o aclamado fotógrafo Greg Girard fala sobre sua nova obra encomendada, HK:PM, que está em exibição na icônica fachada do museu M+ em Hong Kong. O fotógrafo canadense, conhecido por registrar as transformações das paisagens urbanas da Ásia desde os anos 1970, transformou suas fotos em filme da Hong Kong daquela época em um épico visual cinematográfico. A instalação, que exibe imagens de ruas fervilhantes e da já demolida Kowloon Walled City, representa uma jornada de redescoberta para Girard, trazendo de volta à cidade a obra que ela mesma inspirou décadas atrás.
Num verdadeiro movimento de volta às origens, Girard descreve a criação de HK:PM como uma “jornada de redescoberta”, com seu trabalho de décadas voltando a compor o cenário da cidade. Sua obra mais famosa, a série “City of Darkness”, oferece um olhar íntimo sobre o cotidiano da Kowloon Walled City, amplamente vista como uma “zona sem lei”. Girard, porém, quis derrubar esse mito ao registrar o caos arquitetônico lado a lado com a ordem social quase de vila dentro de seus muros. Ele observa que o espírito da Walled City ainda vive hoje na resiliência e na engenhosidade de quem encontra maneiras surpreendentes de superar a adversidade. Ao ser questionado sobre Twilight of the Warriors: Walled In – filme de ficção premiado de 2024 ambientado na Walled City –, Girard reconhece o sucesso como entretenimento, mas afirma que o universo romantizado da produção é completamente diferente da verdadeira Walled City que ele registrou.
O que o atraiu a Hong Kong nas décadas de 70 e 90, e o que o levou a voltar sua lente para a vida cotidiana das ruas?
Como muitas pessoas, fiquei cativado por este lugar logo na primeira visita e acabei ficando. No início dos anos 1970, uma foto do Porto de Hong Kong em um livro de fotografia de viagens da Time Life despertou em mim a vontade de conhecê-lo. Então vim, aos 18 anos.
HK:PM transforma fotografias de décadas atrás em uma sequência cinematográfica na fachada do M+. Como é ver seu trabalho reaparecer no horizonte da cidade de uma forma tão dinâmica e inédita?
É incrível. Ver essas imagens, que nasceram aqui, voltarem a compor a cidade é meio surreal — uma surpresa total, como se um ciclo se fechasse.
Você mencionou que revisitar suas fotos antigas para HK:PM foi uma “jornada de redescoberta”. Como foi revisitar esse trabalho do passado? Houve alguma imagem em especial que trouxe um novo sentimento ou insight sobre Hong Kong daquela época?
Talvez tenha sido rever as fotos da Kowloon Walled City e dos aviões que passavam rasantes sobre o aeroporto Kai Tak — assistir a essas “imagens fantasma” da história recente ressurgir brevemente à noite e voltar a integrar a paisagem urbana.
“Ver essas imagens, que nasceram nesta cidade, voltarem a integrá-la é um pouco surreal. Sem dúvida, é uma sensação de ciclo completo, inesperada.”
A Kowloon Walled City costumava ser vista como um enclave sem lei, mas a sua série “City of Darkness” retratou o cotidiano de lá. O que o motivou inicialmente a entrar na cidade e quais foram suas sensações quando pisou ali pela primeira vez e viu a realidade com os próprios olhos?
Hong Kong nos anos 1980 já era uma cidade muito moderna, então virar uma esquina e dar de cara com aquele complexo colossal de prédios foi um choque visual enorme. Era um misto de medieval com ficção científica, assombroso, e eu pensei na hora: “Isto só pode ser a Walled City.”
Parecia algo improvável dentro da Hong Kong moderna, mas lá estava. Naquela primeira noite, não me aventurei muito longe. Não que eu me sentisse em perigo, mas a sensação de não ser bem-vindo era palpável. Resolvi tentar fotografar e concluí que a melhor forma de fazer isso era ser totalmente aberto e conversar com as pessoas. Eu tinha um kit de iluminação portátil que exigia autorização para ser montado, o que significava pedir às pessoas que me deixassem entrar em seu mundo.
A Walled City era tristemente vista como um lugar de crime e caos. Pela sua lente, enxergamos outra realidade. Qual era a verdadeira história que você queria contar ao mundo com suas imagens?
Não era um cortiço dominado por gangues, mergulhado em drogas, prostituição e violência, como o mundo exterior retratava. O caos da Walled City dizia mais respeito à arquitetura do que à ordem social. Por isso, quis mostrar o lugar como ele realmente era — contrapondo o caos extremo do ambiente construído à ordem social quase aldeã que existia lá dentro.
A Kowloon Walled City foi demolida há décadas, mas sua influência no cyberpunk e na cultura permanece. Onde você acha que o espírito e o charme da Walled City ainda podem ser encontrados hoje, em Hong Kong ou no mundo?
Acredito que o espírito da Walled City ainda exista. Ele vive na imaginação e na criatividade das pessoas, assim como nos laços sociais cultivados dentro das chamadas comunidades informais. Isso vale sobretudo para aquelas que se formam espontaneamente em resposta a crises; sem ajuda das autoridades, as pessoas muitas vezes transformam situações difíceis nos melhores resultados possíveis. Essa vitalidade resiliente é a continuidade do espírito da Walled City.
Com o recente sucesso de Twilight of the Warriors: Walled In , há um interesse renovado pela Kowloon Walled City. Como o fotógrafo que registrou a realidade daquele lugar, qual é a sua visão sobre a representação romantizada do filme em comparação ao que você vivenciou?
Como entretenimento, o filme foi um sucesso, mas o universo que ele retrata é totalmente diferente da Walled City real de que me lembro.
Você já trabalhou tanto com fotografia analógica quanto digital. Qual é a sua filosofia pessoal sobre esses dois meios? Tem alguma preferência ou a escolha do equipamento depende da história que quer contar?
Adoro a estética que o filme analógico proporciona e ainda o uso, mas também fotografo em digital. Minha regra é: use o que entregar o visual que você procura e não se engane achando que “só porque foi feito em filme a foto é melhor”.
Você já disse que seu objetivo é explorar um lugar de forma mais profunda, revelando sua essência. Como faz para encontrar as histórias e momentos escondidos que realmente capturam o espírito de uma nova cidade?
Eu não tirava fotos para contar nenhuma história, pelo menos não de início. Anos depois, minhas fotografias da Walled City acabaram por narrar a sua história, mas tudo começou com curiosidade e um toque de medo quando a encontrei pela primeira vez. Ainda trabalho de forma parecida hoje — fotografo qualquer lugar ou objeto e, então, percebo algo que parece “escondido à vista de todos” e que vale a pena aprofundar. As histórias costumam crescer naturalmente a partir desses achados inesperados.
“Quis mostrar [a Walled City] como ela realmente era — contrapondo o caos extremo do ambiente arquitetônico à ordem social quase aldeã que existia ali dentro.”
Seu trabalho captura um período de mudanças imensas nas cidades asiáticas. Ao observar hoje a paisagem visual de Hong Kong, o que você percebe sobre a situação das pessoas e suas vidas, especialmente em comparação às décadas de 1970 e 1980?
Na última vez que estive em Hong Kong, um amigo me levou à abertura noturna de uma exposição de arte. Era no subsolo de um antigo prédio comercial, um espaço bem informal, mas lotado de jovens. Nunca tinha visto nada parecido; o lugar inteiro tinha uma vibe DIY fortíssima. Na hora pensei: “alguém deveria filmar isso.”
Depois de documentar tantas cidades na Ásia, existe um lugar ou tema em especial que você esteja ansioso para explorar e fotografar a seguir?
Costumo estar sempre trabalhando em algo, mas não falo muito até estar quase pronto para mostrar. Demoro uma eternidade para chegar ao ponto em que as coisas estão quase “terminadas”.
HK:PM está em exibição na fachada do M+ todas as noites até 28 de setembro de 2025. Para mais informações, visite a página oficial do evento.















