A paixão de Guy Berryman por peças vintage vai muito além de uma simples obsessão

Em conversa com a Hypebeast, o diretor criativo conta como transformou seu arquivo pessoal na principal fonte de inspiração da APPLIED ART FORMS.

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Se você pesquisar o termo “applied art forms”, encontrará a seguinte definição: disciplinas artísticas que unem estética e funcionalidade, resultando em objetos simultaneamente atraentes e úteis. No caso da label APPLIED ART FORMS, de Guy Berryman, a disciplina em foco é o design e a construção de roupas, culminando em um portfólio que equilibra praticidade contemporânea e estética utilitária.

Esse enfoque duplo – conciliando forma e função – veio de maneira mais natural para o baixista do Coldplay e diretor criativo do que muitos imaginam. Ao lançar a marca, em 2020, Berryman já contava com um acervo pessoal de achados vintage únicos, garimpados ao longo de anos de turnê com a banda. Ao mergulhar nesse guarda-roupa e experimentar cortes alternativos, ele passou a criar coleções que evidenciam como o visual e o toque de peças de época podem existir na moda de hoje e, ainda assim, envelhecer com beleza.

Chegar até aqui levou tempo, mas Berryman cuidou de cada detalhe do percurso. Num dia típico, divide-se entre tarefas práticas, como pensar as coleções e desenvolver protótipos, e outras menos glamorosas, como lidar com administração e burocracia. Ele reconhece que “alguns elementos não eram o que eu imaginava que fariam parte da minha vida na moda, mas tornaram-se essenciais para manter uma marca em um dos setores mais desafiadores”.

“Eu já colecionava peças havia uns 15 anos, e esse arquivo começou a falar comigo como uma biblioteca de ideias para criar coisas novas.”

O que tornou a jornada ainda mais especial foi instalar a APPLIED ART FORMS no coração de Amsterdã. Depois de viver a vida toda no Reino Unido, ele mudou-se para a capital holandesa e decidiu basear ali o estúdio de criação, dizendo: “É uma cidade muito criativa, onde oportunidades e colaborações estão prontas para acontecer.” Além da cena artística vibrante, é nítido que os códigos de estilo de Amsterdã influenciaram os designs funcionais da label, acrescentando um toque de workwear holandês.

A Hypebeast conversa com Berryman por chamada de vídeo direto do estúdio, onde a equipe se prepara para a apresentação da marca na Paris Fashion Week. Fazendo uma breve pausa no caos, ele fala sobre seu processo de criação, a parceria com a Audio Obscura no evento Highway Rave e a expectativa para a inauguração da primeira flagship em Amsterdã.

Hypebeast: Pode explicar do que se trata a APPLIED ART FORMS?

Berryman: É uma marca profundamente inspirada no meu arquivo de peças vintage. Sou meio nerd quando o assunto é garimpar, seja utilitário, militar ou workwear. A label nasce dessa paixão, filtrada por silhuetas modernas. Em termos de estilo, minha maior referência é o que chamo de “Japanese street style”: modelagens oversized, volumes amplos e, de modo geral, roupas soltas.

O que o motivou a transformar seu amor por roupas na criação de uma marca?

Minha formação era em engenharia e arquitetura antes de a música me levar por outro caminho. Sempre me interessei por todo tipo de design industrial e artesanato e achei que acabaria desenhando cadeiras ou luminárias. Mas cheguei a um ponto em que pensei: se não fizer algo em design e manufatura agora, nunca farei. Nessa época, eu já colecionava roupas havia cerca de 15 anos, e esse arquivo passou a funcionar como uma biblioteca de ideias para criar coisas novas.

Quais movimentos da moda influenciam a marca? Existem alguns que você revisita com frequência na pesquisa?

Para mim, a principal fonte são sempre as peças utilitárias originais – sobretudo dos anos 40, 50 e 60. Tudo era muito bem-feito naquela época; a partir dos anos 80 e 90, a qualidade começou a cair. Tenho interesse nos uniformes do U.S. Army, British Army e British Navy – roupas essencialmente funcionais, não tanto pelo estilo, mas pelo nível de execução. O processo que sigo ao desenhar não difere do de outros criadores que admiro. Massimo Osti, por exemplo, foi um dos maiores colecionadores de utilitários vintage, e isso norteou tudo o que fez na Stone Island e na CP Company. Toda a inspiração de Helmut Lang veio de excedentes militares. Mesmo Martin Margiela: a linha masculina difere bastante da feminina, com foco bem maior no utilitário.

“Não seguimos tendências de temporada nem nos guiamos por previsões. Acho que esse é um jogo muito perigoso.”

Quão importante é a funcionalidade nas suas peças?

Procuro evitar materiais sintéticos modernos. Por exemplo, muitas de nossas jaquetas de inverno são confeccionadas em algodão densamente tecido, que talvez não o mantenha totalmente seco em um temporal, mas oferece alguma resistência à água. É um exercício de equilíbrio: entender como certos materiais envelhecem e, ao mesmo tempo, lembrar que eles podem não ter a performance dos tecidos atuais. Muitas das minhas peças vintage têm um aspecto incrível justamente porque têm 70 anos, com desgastes e furos aleatórios. Sempre que escolhemos materiais, especialmente para casacos, penso em como eles vão parecer daqui a 70 anos.

Dividindo seu tempo entre a banda e a APPLIED ART FORMS, você se sentiu inclinado a aproximar música e moda por meio da marca?

Por enquanto, não há uma grande conexão. Chegamos a ter uma playlist na loja online, mas sempre enxerguei música e moda como duas partes distintas do meu cérebro. Gosto disso porque criar e vestir roupas é algo muito físico, enquanto compor música é intangível – você sente e ouve. É um processo diferente.

Dito isso, vamos inaugurar nossa primeira flagship em Amsterdã ainda este ano. Sou fã de música e tenho uma grande obsessão por bares de vinil japoneses, então minha ideia é criar um espaço que gere senso de comunidade em torno da marca. Não será um lugar para simplesmente comprar algo e ir embora. O projeto gira em torno da minha paixão por vinil, soul, jazz e funk. Parte da loja contará com um listening bar que convida as pessoas a entrar, socializar ou apenas tomar um café. Nunca se sabe que ideias podem surgir ao reunir gente com o mesmo mindset.

Por que você escolheu Amsterdã como sede da marca?

Simplesmente me apaixonei pela cidade. Passei muito tempo morando no interior da Inglaterra e queria uma nova aventura. Comecei a visitar Amsterdã com frequência e, toda vez que pegava o voo de volta ao Reino Unido, sentia tristeza por ir embora. Achava – e ainda acho – que é um lugar mágico, que reúne toda a cultura de cidades muito maiores – da cena musical às galerias de arte e aos restaurantes – condensada nessa cidade pequena e linda. É Patrimônio Mundial da UNESCO por um motivo.

Você se juntou recentemente à Audio Obscura para criar uma camiseta de edição limitada para o evento Highway Rave. Como foi ser convidado para participar de uma celebração em Amsterdã?

Quando nos perguntaram se queríamos participar do evento com a Audio Obscura, contaram que pretendiam fechar uma rodovia inteira para fazer uma grande rave. Eventos grandiosos em lugares inusitados são exatamente a especialidade da Audio Obscura, então fiquei animado em contribuir criando a camiseta. De certa forma, ela se desenhou sozinha: quando pensamos em raves, o clássico smiley vem à cabeça e, como se tratava de um rave em uma rodovia, resolvi incorporar uma placa de trânsito com efeito de spray. A tiragem foi limitada a 750 peças e toda a renda foi destinada a apoiar o evento.

Além do evento, o que mais está nos planos da APPLIED ART FORMS?

Na próxima semana, faremos um showroom na Paris Fashion Week Men’s, onde apresentaremos as novas coleções aos compradores, item por item. Como sempre, a nova linha gira em torno de peças atemporais – não seguimos tendências de temporada nem previsões de moda, pois considero isso um jogo arriscado. Mais uma vez, tudo nasce de eu vasculhar meu arquivo, encontrar referências que me inspirem e reinterpretá-las de maneira contemporânea.

Também começamos a desenvolver nossa primeira coleção feminina, que chegará na temporada Fall/Winter 2026. Eu estava bem nervoso porque sempre criei para mim mesmo e não tinha certeza se daria conta, mas, conforme avanço, percebo rapidamente que há muito mais possibilidades no feminino do que no masculino. Estou até preocupado de que o que estamos fazendo para mulheres esteja agora mais forte do que o que fazemos para homens.

Para comprar a coleção mais recente da APPLIED ART FORMS, visite o site oficial ou os revendedores parceiros agora mesmo.

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