Carter Gregory e a influência global da cultura latina
O vice-presidente de A&R da Capitol Records comenta a ascensão da música latina no cenário mundial.
Como VP de A&R da Capitol Records, Carter Gregory está na linha de frente da transformação musical na América Latina — destacando artistas e criando momentos que definem o som de agora. Sua participação no clipe de “Veneka”, do Rawayana, e no palco, durante o show da banda no Coachella 2025, vai muito além de uma aparição relâmpago: é a prova de como sua presença reverbera na comunidade Latinx.
“Os artistas latino-americanos trazem uma crueza emocional e uma profundidade cultural únicas. O que os diferencia é a maneira como embebem suas músicas e visuais de história, identidade e um forte senso de lugar. Muitas vezes me sinto transportado para Porto Rico, Colômbia, México, Venezuela, entre outros, quando escuto meus artistas latinos preferidos, graças às narrativas poderosas sobre sua criação e suas cidades natais. Há sempre essa mistura linda de dor e alegria que transborda e soa tão real.”
Conversamos com Carter Gregory para entender melhor a crescente influência da América Latina no cenário global.
Como você percebe que a cultura latino-americana tem moldado as tendências globais de música e moda na última década?
Na música, subgêneros latinos como reggaetón, dembow e latin trap invadiram o mainstream. Artistas como Bad Bunny, J Balvin, Karol G, Feid, Rauw Alejandro e tantos outros não estão só no topo das paradas latinas — eles dominam playlists mundiais e colaboram com alguns dos maiores nomes dos Estados Unidos e da Europa. O mais incrível é que muitos continuam fiéis às raízes — cantam em espanhol, exaltam sua cultura — e ainda assim mobilizam plateias globais. Isso diz muito sobre como o mundo abraçou a identidade latina.
Na moda, vejo um movimento parecido. Muitos designers e stylists Latinx têm misturado streetwear com herança cultural. Sou apaixonado pelas cores vibrantes, pelos padrões indígenas e pelas mensagens ousadas que transbordam orgulho de suas regiões.
O que diferencia os artistas latino-americanos em sua forma de criar e contar histórias, em comparação com outras regiões?
Os artistas latino-americanos trazem uma crueza emocional e uma profundidade cultural sem iguais. Eles incorporam em suas músicas e visuais muita história, identidade e um verdadeiro senso de lugar. Sempre que ouço meus artistas latinos favoritos, sinto-me transportado para Porto Rico, Colômbia, México, Venezuela e além, pelas narrativas potentes sobre suas infâncias e cidades natais. Há sempre essa combinação linda de dor e alegria que soa extremamente autêntica.
Você acredita que a indústria musical global abraça plenamente a riqueza de talentos que surge da América Latina ou ainda há trabalho a fazer?
Eu diria que a indústria musical global está, sim, prestando muito mais atenção à América Latina — é impossível ignorar o impacto gigantesco de tantos artistas Latinx. A música latina está no topo das paradas mundiais, quebrando recordes de streaming e redefinindo o que significa ser “mainstream”. Mas ainda não chegamos lá. Há um potencial enorme nas cenas underground, em artistas emergentes que não se encaixam no molde comercial atual ou não falam inglês perfeitamente.
Como alguém que vive garimpando talentos, vejo uma diversidade imensa que ainda não é devidamente representada nem recebe investimento. Portanto, avançamos, mas ainda há chão pela frente! Precisamos oferecer suporte real e visibilidade aos novos nomes, e não apenas aos gigantes da cultura latina. É aí que entram a Cartera e pessoas como eu — para diminuir essa distância e impulsionar a cultura. Essa é a parte que eu mais amo no meu trabalho.
Como as colaborações entre artistas latino-americanos e nomes internacionais influenciam o cenário musical global?
As parcerias entre artistas latino-americanos e nomes internacionais estão reformulando o som do planeta. Do ponto de vista de A&R, esses encontros interculturais derrubam barreiras linguísticas e apresentam ao público novos flows e histórias que talvez jamais conhecessem. Quando um artista da América Latina se une a outro dos EUA, da Europa, da África, da Ásia e por aí vai, trata-se de fundir universos.
Você pode dividir um momento decisivo da sua carreira em que a cultura latino-americana teve impacto significativo em um projeto seu?
Vou tirar o chapéu de A&R por um instante e falar como Cartera. Um ponto de virada na minha carreira foi quando me conectei com a Venezuela de maneira mais profunda e pessoal. Trabalhar lado a lado com o Rawayana no videoclipe de “Veneka” e receber Beto no Carter’s Cocktails foi transformador. A criatividade da banda, sua mensagem e a forma como incorporam a cultura venezuelana em absolutamente tudo me inspiram demais. Eles são artistas realmente especiais.
Como você enxerga a evolução do papel da cultura latino-americana na indústria global de entretenimento nos próximos cinco anos?
Vejo a cultura latino-americana ocupando um espaço ainda mais central na indústria global de entretenimento. Hoje já vivemos um momento em que o mercado reconhece a riqueza da música, da moda, do cinema e da narrativa latinas.
Nos próximos cinco anos, acredito que veremos criativos latinos não apenas em evidência, mas à frente das narrativas e no controle das plataformas.
O talento latino seguirá ampliando seu alcance — veremos também mais fusões e colaborações entre culturas. A cultura latino-americana vai criar estéticas e sons totalmente novos para o mundo. Os próximos cinco anos prometem ser profundamente inspiradores.



















