Vale sacrificar as maiores franquias de Hollywood por um lucro rápido baseado em nostalgia?
A obsessão da indústria por “isca de nostalgia” ameaça um colapso criativo e a confiança do público.
Ao pensar nos filmes que você viu este ano, algum destes vem à mente: as versões em live-action Lilo & Stitch, Jurassic World Rebirth, Captain America: Brave New World, a versão em live-action How to Train Your Dragon e Snow White, Freakier Friday, e o recém-lançado Tron: Ares?
Todos esses filmes foram lançados apenas nos últimos 10 meses, mas cada um carrega uma profunda sensação de familiaridade, pois são baseados em séries icônicas de quadrinhos, desenhos clássicos da Disney ou franquias cinematográficas populares que perduram há décadas. Essa tendência consagra 2025 como um ano decisivo na história do cinema, marcando o ápice inegável da dependência de Hollywood no “nostalgia bait”, tentando fisgar o público com personagens, cenários ou franquias de sua infância.
O motivo pelo qual essa estratégia funciona, a princípio, é profundamente psicológico, indo muito além do simples reconhecimento de marca e entrando no terreno do autocuidado emocional em um mundo estressante e turbulento. O público anseia por “tempos mais simples” — uma versão romantizada da infância ou de um período da vida que parecia menos tenso e mais previsível. Ao comprar ingresso para um remake ou uma sequência, adquirimos um seguro emocional, na esperança de nos conectarmos aos “bons tempos do passado” para compensar a complexidade do presente. Porém, essa dependência de um conforto previsível torna frágil a conexão direta do filme com a audiência. Se os estúdios violam a garantia emocional de fidelidade e qualidade, a resposta do mercado é rápida e punitiva.
Hollywood recorre a essa isca porque, financeiramente, ela é de baixo risco para os grandes estúdios, que em sua maioria têm receio de apostar em uma ideia original que pode ou não dar certo. Como resultado, optam por continuações formulaicas, já que o público invariavelmente “vota com a carteira” por franquias conhecidas, mesmo quando o poço criativo secou. Esse vício em reprises levou à “fadiga de franquias” e à suposta perda de criatividade e originalidade no setor. Embora as bilheterias colossais dessas velhas franquias possam mascarar problemas de rentabilidade, elas reforçam a narrativa — muitas vezes amplificada por críticas profissionais e opiniões nas redes sociais — de que a indústria está presa em uma “death spiral of nostalgia bait”.
A consequência dessa autodestruição é evidente nos maiores fracassos de 2025. Veja o caso de Snow White (2025): o remake em live-action de altíssimo risco teve um orçamento de produção de US$ 269,4 milhões, mas fracassou nas bilheterias, arrecadando apenas US$ 205,7 milhões no mundo todo. Esse total não cobriu nem o custo de produção, resultando em um prejuízo financeiro assombroso.
O fracasso veio de uma “visão fraturada”, “dividida entre nostalgia e mensagens modernas”, que não satisfez ninguém. Esse desalinhamento criativo foi agravado pelas críticas públicas da atriz principal, Rachel Zegler, ao filme original de 1937, descartando a história de amor e criticando sua representação das mulheres. O público central interpretou isso como desrespeito ao material original, rompendo a conexão emocional com o filme. Além disso, a produção foi amplamente criticada pelas atuações aquém do esperado, pelo enredo reescrito e enfraquecido e pelo CGI dos Sete Anões originais. Todos esses fatores sugaram a “magia” da versão original, transformando tudo numa lição caríssima para a Disney neste ano.
@benfarryt Por que o filme Snow White fracassou? #snowwhite #movie #disney ♬ som original – Ben Farr
O problema da saturação também ficou visível nas franquias de super-heróis, como se viu na produção da Marvel Captain America: Brave New World (2025). Apesar de um orçamento de produção de US$ 180 milhões, o filme arrecadou US$ 415,1 milhões na bilheteria mundial — tornando-se somente o segundo melhor desempenho da série, atrás do original The First Avenger de 2011. Embora esse resultado de bilheteria indique que o filme provavelmente chegou a um ponto de equilíbrio técnico, ele foi universalmente encarado como uma decepção em comparação às bilheterias dos filmes anteriores da franquia Captain America.
Às vezes, mesmo quando a aposta na nostalgia é comercialmente bem-sucedida, a corrosão criativa ainda salta aos olhos. O capítulo mais recente de Jurassic Park na franquia, Jurassic World Rebirth, já arrecadou mais de US$ 887 milhões nas bilheterias até agora, mas vem sendo criticado nas redes por não capturar a essência. Fãs no TikTok reclamaram da falta de profundidade dos personagens na trama, classificando-o como o pior Jurassic Park da história. Críticos também apontaram que o enredo havia descambado para uma narrativa desgastada sobre “ganância da Big Pharma”, em vez de verdadeira originalidade — comprovando que o sucesso comercial pode camuflar a decadência criativa.
Nem toda tentativa de revival termina em desastre, porém. Um filme de 2025 provou que a nostalgia, quando tratada com respeito e qualidade, ainda pode provocar um fenômeno cultural: a versão em live-action da Disney de Lilo & Stitch. Lançado com um orçamento moderado de US$ 100 milhões, o longa ultrapassou US$ 1,037 bilhão em bilheteria mundial, tornando-se o segundo maior sucesso de 2025 até agora.
A razão desse sucesso foi simples: produção de qualidade e fidelidade criativa. O filme foi elogiado não por revisões agressivas e conflitantes, mas por “bater em notas semelhantes ao original”, ao mesmo tempo em que dava bem mais profundidade a personagens como Lilo e Nani e reforçava o núcleo emocional do ohana (família) como tema central. O público no Rotten Tomatoes também destacou o foco do filme e o Stitch em CGI como “muito bem feito” e “mágico”. O público recompensa a integridade de produção e valida a nostalgia pela qual pagou, em vez de rejeitar o material de imediato, como fez com Snow White.
Apesar de um modelo claro de sucesso como Lilo & Stitch, a indústria cinematográfica insiste em conteúdos de baixo esforço e baixa fidelidade. Priorizar o fluxo constante de apostas de baixo risco em detrimento de uma visão criativa genuína arrisca destruir conexões emocionais e perpetuar essa “death spiral of nostalgia bait” por meio de remakes criativamente falidos.
A indústria mainstream do cinema precisa ponderar o risco/retorno dessas decisões: esse dinheiro rápido de nostalgia realmente vale a pena a ponto de comprometer grandes franquias — e a confiança do público — para sempre?



















